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Os dois dias que abalaram o Brasil e sua Marinha Mercante   03-03-07
Comte. Luiz Augusto C. VENTURA – CLC.
venturalac@yahoo.com.br


No intervalo de apenas dois dias, 15 e 17 de agosto de 1942, dramáticos episódios marcaram para sempre a História Contemporânea do Brasil e, em especial, de sua Marinha Mercante.

Nessas 48 horas fatídicas, cinco navios brasileiros (três deles em apenas uma noite no espaço de dez horas) foram torpedeados, fria e cruelmente, pelo submarino nazista U-507 comandado pelo Capitão-de-Corveta Harro Schacht: “Baependi”, “Araraquara”, “Aníbal Benévolo”, “Itagiba” e “Arará”. Foram mortas 551 pessoas, dentre elas inúmeras crianças.

Oficialmente ainda um país neutro na Segunda Guerra Mundial que já se desenvolvia na Europa, o Brasil, que havia rompido relações diplomáticas com a Alemanha de Hitler em janeiro daquele ano, foi surpreendido (retaliação?) com covardes ataques fatais a navios mercantes que inocentemente transportavam carga e passageiros em seu litoral.


A primeira vítima foi o “Baependi”. Navio pertencente ao Lloyd Brasileiro, construído na Alemanha em 1912, com 74 tripulantes e 235 passageiros a bordo (a maior parte era constituída por militares do 7º Grupo de Artilharia de Corso que desembarcaria em Recife), além de carga geral, saiu de Salvador no dia 15/08/42 às 0700hs, em sua viagem 119, com destino a Manaus e escalas programadas em Maceió, Recife, Cabedelo, Natal, Areia Branca, Fortaleza, São Luiz, Santarém, Óbidos, e Itacoatiara.

Seguindo a rota determinada pelo Comandante, Capitão-de-Longo-Curso João Soares da Silva, o navio, com uma marcha média de 10 nós, às 1400hs cruzou o través de Garcia d’Ávila a cinco milhas de distância e passou a governar aos 060º na agulha magnética para passar dentro do raio de alcance do farol de S. Francisco do Norte. Estava, portanto, em navegação costeira.

Navegou tranqüilamente (iluminado) até às 1900hs quando subitamente foi sacudido por uma violenta explosão provocada por um torpedo que o atingiu na altura da meia-nau por boreste. O Oficial de Náutica de serviço era o Primeiro Piloto Alicio Borges Tavares.

“O primeiro instante deixa todas as pessoas imóveis de espanto, a respiração suspensa, as fisionomias pálidas e angustiadas... Não há gritos; nenhum pânico. Percebe-se em cada um o esforço mental para entender o ocorrido, para buscar uma solução, pressentindo a gravidade do terrível momento...” - relata o Capitão do Exército Lauro Moutinho que sobreviveu ao naufrágio.

Menos de um minuto depois, sem que ninguém ainda houvesse se refeito do susto, outro torpedo provoca nova explosão um pouco mais a ré, no mesmo bordo. Era o tiro de misericórdia. Sem tempo e chance para que fosse organizado e ordenado o abandono, o navio aderna para boreste e afunda em menos de cinco minutos calando o apito rouco que emitia seu último suspiro acionado pelo seu Comandante que morreu no passadiço.

Para incrível sorte de uns poucos sobreviventes, uma das baleeiras, em conseqüência das explosões, desprendeu-se de seu turco, caiu no mar encapelado e, flutuando ao sabor das ondas, foi sofregamente agarrada por náufragos que vagavam à deriva em tábuas e outros objetos flutuantes, enquanto gritos desesperados ecoavam na escuridão da noite.

Vinte e oito pessoas, muitas delas feridas, se amontoaram na pequena embarcação e lutaram desesperadamente para sobreviver. Inundada vez por outra pelas fortes ondas e por um rombo preocupante na proa, a baleeira precisava constantemente ser aliviada com baldes que passavam de mão em mão. Era preciso remar o mais rápido possível, mas... em que direção? Onde estaria a costa?
 
Felizmente um dos recolhidos na baleeira era o Primeiro Piloto Alicio que, recobrando os sentidos, resolve com simplicidade o problema de navegação: “o vento está soprando para terra. Vamos remar nessa direção”. Uma noite inteira de agonia e a felicidade de divisar, no crepúsculo do amanhecer, o litoral de Aracajú e, após mais algumas remadas, pisar em terra firme pela manhã.

Balanço da tragédia do “Baependi”: morreram 59 dos 74 tripulantes e 221 dos 235 passageiros, num total de 280 mortos.
Melhor sorte não teve o “Araraquara”. Navegando na mesma região que o “Baependi” também foi torpedeado, duas horas depois, pelo mesmo U-507 que utilizou a mesma “técnica” destruidora: dois certeiros torpedos no costado de BE em intervalo de tempo inferior a um minuto.

O “Araraquara” pertencia à Cia. “Lloyd Nacional” e saíra do Rio de Janeiro com destino a Cabedelo, com escalas em Salvador, Maceió e Recife, comandado pelo Capitão-de-Longo-Curso Lauro Augusto Teixeira de Freitas. Levava a bordo 73 tripulantes e 69 passageiros além de carga geral.

Deixou sua primeira escala, Salvador, às 1100hs do dia 15/08/1942, com destino a Maceió com ETA para o amanhecer do dia seguinte. Navegando sob forte vento, mar encapelado e chuvas constantes, a viagem, apesar disso, transcorria normal.

Essa normalidade durou pouco.
Até o través da cidade de Aracajú. Às 2100hs, com o clarão da cidade por BB, o Segundo Piloto de serviço, Benedito Iunes ouviu uma forte explosão acompanhada do estremecimento do navio.

Ao chegar ao passadiço para se inteirar da situação, o Comandante recebeu a notícia do torpedeamento ao mesmo tempo em que já percebia o rápido adernamento do navio. Ordenou o abandono imediato e alguns tripulantes ainda tentaram arriar suas baleeiras. Um segundo torpedo, no entanto, frustrou essa intenção.

“Não houve tempo para ser arriada nenhuma baleeira, tendo sido empregados todos os meios para isso” – relatou o Primeiro Piloto Milton Fernandes da Silva, um dos poucos sobreviventes. 

O Primeiro Piloto ainda relatou que, seguido por alguns passageiros, ao desistir da sua baleeira, correu pelo costado (o navio já estava 90 graus adernado) e se atirou n’água pisando na quilha, tão rápido foi o emborcamento.

“Após voltar à tona, parei e pude presenciar o navio mergulhar de popa, ficar completamente em pé e desaparecer” – lamentou ele.

Apenas 11 pessoas conseguiram chegar ao litoral de Aracaju sobrevivendo agarradas em destroços.

Oito tripulantes e 3 passageiros, sendo duas mulheres.
Balanço da tragédia: 131 pessoas mortas.
O U-507 não teve muito trabalho para localizar nova vítima.
Desta vez foi o “Aníbal Benévolo”, navio do Lloyd Brasileiro que havia saído de Salvador para Aracaju pouco depois do “Araraquara”.

Na madrugada do dia 16, às 0413hs, dois torpedos puseram, a pique, em dois minutos, mais esta unidade da nossa Marinha Mercante.

Pouca gente sobrou para contar a história.
Dos 64 tripulantes e 83 passageiros, praticamente todos dormindo por ocasião do torpedeamento, apenas quatro tripulantes sobreviveram.
Todos os passageiros morreram, muitos presos em seus camarotes. Dos quatro tripulantes que escaparam com vida, um deles era o Comandante Henrique Jacques Mascarenhas Silveira que, corajosamente, voltou posteriormente a comandar outro navio. 

As notícias, naquela época, levavam uma eternidade para chegar na Capital Federal, o Rio de Janeiro. A velocidade das comunicações era menor do que a dos navios. Televisão não existia. Apenas as rádios e os jornais divulgavam notícias atrasadas que, mesmo assim, comoviam a opinião pública.
Assim é que, antes de cessar a comoção pelo torpedeamento desses três navios, nova catástrofe foi anunciada: a vítima seguinte foi o “Itagiba”, navio misto da Companhia Nacional de Navegação Costeira, construído na Inglaterra em 1915.

O “Itagiba”, sob o comando do Capitão-de-Longo-Curso José Ricardo Nunes, foi torpedeado em plena luz do dia, por volta de 1100 horas do dia 17, quando a maioria dos tripulantes e passageiros se encontrava no almoço. O navio, que havia saído de Vitória para Salvador com 58 tripulantes e 115 passageiros, navegava nas proximidades do Morro de São Paulo, ao sul da capital baiana.

Para sua infelicidade o U-507 resolvera se locomover para o sul (teria já a informação?) e localizou o navio que navegava de Vitória para Salvador e estava quase chegando ao seu destino. Desta vez os alemães utilizaram apenas um torpedo (devem ter tido algum problema com o segundo, pois a intenção era não dar nenhuma chance). Mesmo assim a explosão provocada pelo projétil que atingiu o costado por BE na altura do porão três, adernou e botou o navio a pique em dez minutos. Talvez por ter sido apenas um torpedo e por estarem todos despertos, houve tempo de serem arriadas algumas baleeiras, tendo sobrevivido um maior número de pessoas.

Das 173 pessoas a bordo pereceram dez tripulantes e 26 passageiros, ou seja, 36 vítimas fatais foram acrescentadas ao morticínio das quarenta e oito horas fatídicas vivenciadas pela nossa Marinha Mercante.   

Mesmo reconhecendo a lentidão das informações, é difícil entender como as autoridades da Bahia permitiram a saída do “Arará” no dia 17, pois já deveriam ter conhecimento do torpedeamento do “Baependi”, do “Araraquara” e do “Aníbal Benévolo” nas horas anteriores.
O “Arará”, pequeno navio da companhia “Lloyd Nacional”, saiu de Salvador com destino a Santos com um carregamento de sucata de ferro e sem passageiros. Sua tripulação era de 35 homens e seu Comandante o Capitão José Coelho Gomes.
O “Arará” deveria cruzar com o “Itagiba”. A poucas milhas da barra de Salvador, o Comandante do “Arará” divisou uma embarcação em chamas (era o “Itagiba”) e para lá se dirigiu cumprindo sua obrigação solidária de prestar socorro.

Parou sua máquina, arriou duas baleeiras e, quando já tinha recolhido alguns náufragos, foi também torpedeado indo a pique em poucos minutos.

O U-507 usou o segundo torpedo economizado com o “Itagiba”.
Balanço da dupla tragédia: 36 mortos do “Itagiba” (sendo 26 passageiros) e 20 tripulantes do “Arará”.

Estava desenhado o quadro que forçaria uma tomada de posição do governo brasileiro. Os estudantes e a população em geral tomaram as ruas do Rio de Janeiro e, comovidos e revoltados, exigiram atitudes enérgicas.

No dia 22/08/1942 o governo de Getúlio Vargas declarou guerra aos países do Eixo e, a partir daí, nossos navios passaram a sair dos portos em comboio protegidos pela Marinha de Guerra do Brasil.


Os comboios da Segunda Guerra Mundial

Comte. ERNANI A. M. Ribeiro - CLC
ernani.ribeiro@terra.com.br


Não sei se esta matéria interessa aos leitores de nosso Boletim, uma vez que muitos já escreveram sobre o assunto, pessoas muito mais qualificadas do que eu. Mesmo assim vou tentar descrever, sob o ponto de vista de um 2º Piloto, o que vi e aprendi durante o tempo da guerra a respeito dos comboios e da Segunda Guerra de um modo geral.

Navegando em comboio: Os principais portos de partida de comboios eram Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Para os navios que viajavam para a América do Norte, além dos já citados, se incluíam Trinidad e Key West.
A partida de um comboio envolvia muita gente de diversas organizações.

À Autoridade Naval cabia a direção e organização do comboio que acionava o serviço de praticagem, a direção do porto, amarradores e rebocadores.

Do início da operação até o comboio seguir viagem, muito tempo se passava. Em primeiro lugar, saiam os navios da escolta que ficavam ao largo patrulhando a área, aguardando os mercantes.

Estes iam desatracando na medida da disponibilidade de práticos, amarradores, etc, e dirigindo-se para a área de formação para ocupar seus lugares no dispositivo.

Antes da partida do comboio, os comandantes dos mercantes, acompanhados de seus oficiais radiotelegrafistas, assistiam a uma conferência com a Autoridade Naval e o Comodoro, ocasião em que recebiam um envelope lacrado com todas as instruções para a viagem e o número que indicava seu lugar no dispositivo, envelope que só podia ser aberto fora da barra.    

A procura do lugar nesse dispositivo era uma manobra arriscada com os navios cruzando muito próximo uns dos outros, no afã de se colocarem em suas posições.

O Comodoro se instalava no mercante com melhores condições, com sua equipe (artilheiros, sinaleiros e ajudantes), e se posicionava na frente da coluna do meio, de onde transmitia suas ordens para os mercantes.

A comunicação era feita por meio da lâmpada Aldis ou outro dispositivo de Morse luminoso em linguagem corrente (inglês), semáfora ou por meio de bandeiras do CIS, usando um código de três bandeiras (MERSIG- Merchantship Signal). Havia também os sinais sonoros (apitos).

À noite, para comunicação de emergência, era usado um conjunto de lâmpadas de várias cores colocadas em um pequeno mastro no convés do tijupá (logo apelidado de Árvore de Natal). Radiotelegrafia ou fonia somente em caso extremo.

Os navios que seguiam para os portos dos Estados Unidos recebiam armamento. Um canhão na popa, outro de menor calibre na proa, e metralhadoras antiaéreas nas proximidades do passadiço. As casas do leme e a da navegação eram blindadas, assim como a estação radiotelegráfica. Nesses navios embarcava uma pequena guarnição da Marinha, artilheiros e sinaleiros, já que não tínhamos pessoal habilitado para esse fim.

O navio “Cearaloide”, ex-italiano “Laura Lauro”, aprisionado em Recife, em que estive embarcado no final da guerra, por estar afretado ao governo americano, tinha guarnição militar da Marinha Americana.

Os navios da Cabotagem não eram armados. Às vezes embarcava um sinaleiro da Marinha.
Todos os navios foram pintados de cinza, como os navios de guerra. Suas identificações eram omitidas.

Quando no porto exibiam, na altura do passadiço, uma placa com seu nome, costume mantido até os dias atuais.

Sabe-se que alguns navios colocavam redes de aço ao longo dos costados, sustentadas pelos paus-de-carga disparados para fora, com a finalidade de deter torpedos.

Nunca vi nenhum deles.

Devia ser manobra extremamente complicada. (Ver foto ao lado)

Cada comboio tinha um código de identificação como: JR, Rio para Recife; RT, Recife para Trinidad; BT, Bahia para Trinidad; FJ, Florianópolis para Rio de Janeiro, seguido pelo número de viagens e outros mais, para destinos em todo o Atlântico e Mediterrâneo, inclusive o da terrível travessia PQ, Islândia para Murmansk.                

Uma vez formado o comboio, o Comodoro, geralmente oficial da reserva da Royal Navy, dava a ordem de partida e determinava o rumo a seguir. Já em viagem, começavam os exercícios de mudança de rumo, ziguezague etc. No ponto ao meio dia, cada navio, por meio de bandeiras do C.I.S, transmitia a posição determinada. Às vezes, alguns navios apresentavam posições completamente disparatadas. Das posições mais plausíveis, o Comodoro tirava a média e transmitia para todos os navios a posição oficial do comboio.

Durante o dia, e com boa visibilidade, não havia problema em navegar muito próximo aos outros navios. Em geral, a distância entre eles era de três cables (555 metros), para a coluna e dois cables (370 metros), entre as colunas. À noite, porém, a dificuldade de enxergar aumentava muito, principalmente quando na lua nova ou sob forte aguaceiro ou ainda sob cerração.

Passava-se todo o quarto de binóculo, controlando a marcha do navio pelo telégrafo e sempre atento ao leme para evitar colisão.

Alguns navios levavam em baixo do farol de esteira uma luz azul bem fraquinha. Outros rebocavam uma espécie de flutuante com uma prancha em diagonal que, com o deslocamento, provocava um esguicho de água, o que facilitava muito para o navio que vinha à sua popa enxergar sua posição. Naturalmente todos os navios navegavam com as luzes apagadas.

Esta determinação era tão rigorosa, que até acender um cigarro no convés era proibido. Evitava-se ao máximo qualquer luz no interior dos camarotes e alojamentos.

À noite, em caso de emergência, como já foi dito, o Comodoro exibia uma combinação de lâmpadas coloridas que, conforme as cores e seqüência, podia significar contato com submarino, mudança de rumo ou ziguezague. No caso de ziguezague, ao final da manobra, os navios ficavam fora de suas posições, já que nem todos respondiam ao leme de maneira uniforme. Havia também os navios repetidores (retransmitiam as mensagens do Comodoro para as outras embarcações).

Quando era detectado um submarino, os destroyers e caças lançavam bombas de profundidade. Era uma ocasião de grande preocupação e expectativa e, por que não dizer, de medo.

Mesmo assim, talvez porque não houvesse tempo para tédio, as viagens em comboio resultavam para nós, jovens, até divertidas. Tudo era novidade e aventura. O quarto todo era ocupado em manter o navio em sua posição e observar o Comodoro para executar as ordens. O comissário, o conferente e o enfermeiro também participavam da vigilância.


A maioria dos navios daquela época, principalmente os do Lloyd Brasileiro, era ainda do inicio do século passado e até mesmo, alguns poucos, do fim do século dezenove; navios a máquina alternativa de tríplice expansão, caldeira a carvão, o que provocava uma enorme fumaceira, principalmente nas mudanças de quarto, quando os foguistas atiçavam os fogos e os carvoeiros retiravam as cinzas, ocasião em que a pressão caía e os navios quase paravam.

Isso sem falar na “ramonagem” (retirada da fuligem), quando até fagulhas saiam pela chaminé.

É conhecido o caso do Bagé (foto ao lado), excluído de um comboio por causa da fumaça e que, por isso, veio a ser torpedeado, ocasionando a perda de muitas vidas, inclusive a de seu Comandante.

Nos comboios de Recife para Trinidad, os navios destinados a Belém e portos do Amazonas, a cerca de 150 milhas do través de Salinópolis (o comboio navegava bem por fora), recebiam do Comodoro ordem de seguirem para seus destinos.

Aqueles com caldeira a carvão queimavam da reserva do melhor combustível que tinham para alcançarem o máximo de velocidade, pois era ocasião de grande perigo de torpedeamento.

As cartas náuticas, até pouco tempo após o fim da guerra, ainda traziam uma enorme quantidade de sinais de cascos soçobrados naquela área. Os que seguiam para Trinidad ainda iriam enfrentar perigos maiores devido a maior distância.

Nos primeiros navios torpedeados, muita gente morreu presa nos camarotes e alojamentos devido à torção das chapas do costado ou da superestrutura, o que fazia com que as portas ficassem emperradas e trancadas.

Logo foi providenciada uma saída de emergência coberta por uma fina placa de madeira compensada, na parte inferior da porta, que podia ser aberta com um simples pontapé, expediente adotado até os dias atuais.

Até agora não falei quase nada sobre a escolta.

A essa altura a memória já começa e me pregar peças, mas me lembro dos varredores que iam à frente do comboio para detectar minas, caças e destroyers nos flancos.

Lembro-me da silhueta do cruzador “Bahia”, na costa, sempre pelo lado do mar. É inegável o sacrifício do pessoal dos caça-paus, navios de uns trinta metros, onde não havia qualquer conforto, com água e rancho racionados.

Cobertura aérea, quase não víamos, pois os aviões operavam fora da vista do comboio, efetuando varreduras. Essa cobertura foi muito eficiente, como viemos a saber mais tarde.

Navegando escoteiro:
Muitas vezes, em pequenos trechos, navegávamos sem nenhuma proteção.

Nesses casos, procurávamos desenvolver o máximo de velocidade e, mesmo à noite, com os faróis de terra apagados, andávamos bem próximo à costa, em pouca profundidade, lá onde os submarinos não ousavam nos alcançar.

Contávamos com a grande experiência dos Comandantes e com as imprecisões das cartas náuticas daquela época, naturalmente em prejuízo de nossos inimigos. 
Algumas considerações:

O teatro de guerra do Atlântico Sul foi secundário se comparado ao do Atlântico Norte, onde houve as maiores perdas de navios.
O gráfico ao lado mostra a porcentagem das perdas por área.
        
No Atlântico Norte, as perdas somaram aproximadamente 2.232 navios mercantes com cerca de 11.900.000 toneladas brutas.

O fato de a batalha do Atlântico Sul ser menos importante que a do Atlântico Norte, não tira, de modo algum, a importância da participação da Marinha do Brasil e da Marinha Mercante Brasileira na Segunda Guerra Mundial.

A primeira, mesmo com navios obsoletos ou adaptados e outros adquiridos nos Estados Unidos, conseguiu, em pouco tempo, dar segurança e manter operando os comboios de abastecimento e de interligação entre as várias regiões do País.

A Marinha Mercante Brasileira, apesar de ter sofrido as maiores baixas, continuou cumprindo seu dever de abastecer não somente as várias regiões brasileiras, mas também os nossos aliados com materiais estratégicos como borracha, madeira, algodão, café etc.

Para nosso orgulho, não foi necessária a convocação da nossa Marinha Mercante. Era a nossa profissão, continuamos navegando apesar da guerra.

Ela nos revelou vários heróis.
Muitos dos nossos, apesar de terem seus navios torpedeados, seus companheiros mortos, logo embarcaram em outros navios, demonstrando louvável compreensão de seu dever.

Vou citar alguns que conheci pessoalmente: Comandante José Ricardo Nunes, do “Itagiba”; Comandante Henrique Jacques Mascarenhas Silveira, do “Aníbal Benévolo”; Comandante Eurico Gomes de Souza, torpedeado em dois navios: “Alegrete” e “Brasiloide”; o então praticante de máquinas, náufrago do “Bagé”, O.S.M Jorge Alves Pinto, que como bom nadador, num ato heróico, salvou vários militares prestes a se afogarem. E muitos outros, oficiais e guarnição de um modo geral.
Não dá para citar todos.

Um fato curioso:
Antes de o Brasil declarar guerra aos países do Eixo, alguns tripulantes de nossos navios desertaram em Nova Iorque, diziam, aliciados por um comerciante brasileiro ali estabelecido, para embarcarem em navios americanos, nos quais ganhariam muito mais, embora com muitos riscos, pois os Estados Unidos da América já estavam em guerra.

Provavelmente esses mercenários foram parar na rota de Murmansk.
Conheci um deles.

Terminado o conflito, retornou para tentar regularizar seus documentos, mas não conseguiu.
Voltou para América e foi ser marinheiro nos navios da antiga companhia americana Moore McCormack.

O final da guerra foi festejado com muita alegria e alívio para todos nós, mas ainda, por muito tempo, tivemos que lidar com a praga das minas desgarradas.


O Imediato que não enxergava bem.
Comte. Ernani A. M. Ribeiro – CLC

N/M “JANGADEIRO”


Na última guerra mundial fiz parte, como 2o Piloto, da tripulação, do N/M “Jangadeiro”, cargueiro do Lloyd Brasileiro de 4.685 Tpb e 102.5m de comprimento, construído na Holanda e que, juntamente com 4 irmãos – Bandeirantes, Carioca, Inconfidente e Farrapos – constituíam a popular classe dos “Vitaminas”.

Como era um navio de cabotagem, lotava somente dois Pilotos e tinha o serviço de quarto assim distribuído: o Imediato fazia o primeiro quarto (0400 x 0800h e 1600 x 2000h), o 1º Piloto, o segundo quarto (0800 x 1200h e 2000 x 2400h) e o 2º Piloto o terceiro quarto (1200 x 1600h e 0000 x 0400h).

Na mudança matutina de quarto eu mostrava ao Imediato nossa posição no comboio indicando-lhe o navio que ia a vante, os que iam a BB/BE e o de ré (navegávamos muito próximo uns dos outros, com todas as luzes apagadas e, às vezes, com pouca visibilidade).

Quando amanhecia a formação estava transformada em uma total confusão. O ordenamento dos navios era completamente diferente. O Comodoro furioso enviava mensagens pelo “day-light” reclamando que tínhamos saído de nossa posição. Era comum um caça-pau se aproximar e nos levar de volta para o nosso devido lugar no comboio.

Era difícil entender  como o Imediato conseguia fazer aquela bagunça.

Mais tarde viemos a descobrir que o nosso “Chief Mate” enxergava muito mal e, avaliando o perigo pelo qual tínhamos passado, agradecemos aos céus por tanta sorte. Corremos mais risco de uma colisão do que de um torpedeamento. 


A saída do comboio.       08-02-08

Comte. Ernani A. M. Ribeiro

Em Recife, no tempo da guerra, um dos segredos que todos procuravam ansiosamente descobrir era o dia da partida do comboio.

Os nossos inimigos (5ª coluna), por razões óbvias, e  os tripulantes dos navios, para saber se ainda havia tempo para privar da companhia das moças das ruas da Guia e Bom Jesus.

Mas, por incrível que pareça, muitas vezes o segredo vazava.
Diziam as más línguas que a lavadeira mais antiga do porto, dona Neném (nome fictício), era quem tinha a informação privilegiada...

Na verdade só sabíamos do dia real da saída quando o nosso Comandante era chamado à OM competente para a conferência com as autoridades navais e com o Comodoro do comboio, mas quase sempre o “palpite” da dona Neném se confirmava.

Os que vivenciaram aqueles tempos hão de se lembrar.

Ação no Atlântico Sul      07-03-08

Cmte. Ernani A. M. Ribeiro - CLC

Um dos mais dramáticos atos de heroísmo da Segunda Guerra Mundial ocorreu no dia 27 de setembro de 1942, no Atlântico Sul, a bordo do navio americano, classe “liberty”, S.S. “Stephen Hopkins”.

Ele foi interceptado pelo fortemente armado cruzador “Stier” e seu acompanhante “Tennenfels”, ambos disfarçados de navios neutros.

Quando o navio americano recusou render-se, os dois alemães começaram a atirar com canhões e metralhadoras. O americano, com seus artilheiros já a postos, revidou valentemente com seu canhão de popa conseguindo atingir o “Stier”, que sofreu sérias avarias.

O navio americano, por sua vez, já estava em chamas.

O cadete de máquinas americano O´Hara, vendo mortos todos os componentes da guarnição do canhão de popa, conseguiu ainda disparar os últimos projéteis, pondo o “Stier” em chamas, mas foi atingido por um estilhaço de granada, vindo a falecer.
Ambos os navios foram ao fundo.

O Tennenfels conseguiu se safar. Sobreviventes do “Stephen Hopkins” ficaram à deriva em uma baleeira por 30 dias até atingirem terras brasileiras.

Por esse ato de heroísmo o Comandante do S.S. “Stephen Hopkins”, Paul Buck, o cadete O´Hara e mais quatro oficiais receberam a Medalha de Serviços Notáveis (Distinguished Service Medal) os dois primeiros post mortem. O S.S. “Stephen Hopkins” recebeu a distinção de bravura (Gallant Ship Award).

A Academia de Marinha Mercante Americana (U.S. Merchant Marine Academy) é a única academia federal autorizada a ostentar a Bandeira de Batalha (Battle Standard Flag).

O trágico destino do comboio PQ-17      02-05-08

Comte. Ernani A. M. Ribeiro
ernani.ribeiro@terra.com.br

Um poderoso encouraçado alemão e um erro de avaliação levou à quase destruição do comboio PQ-17, com a perda de 24 navios aliados afundados pelos aviões e submarinos alemães, 153 vidas de marinheiros mercantes, além da preciosa carga de 210 aviões bombardeiros, 430 tanques, 3.350 veículos diversos e cerca de 100.000 toneladas de munições.

O comboio PQ-17 partiu de Hvalfjord, Islândia, em 27 de junho de 1942 sob o comando do Comodoro Dowding (Commander, Royal Navy Reserve), com destino aos portos russos de Murmansky e Archangel, no início escoltado por somente 3 varredores e 4 trawlers armados.

Mais tarde juntaram-se a eles a escolta de oceano comandada pelo Capitão-de-Fragata Broome, no destroyer Keppel e mais 5 destroyers, 4 corvetas, 2 submarinos e 2 navios de combate antiaéreo.
Ao largo, fora de vista do comboio, estavam 4 cruzadores sob o comando do almirante Hamilton.

A nordeste estava uma força composta pelos encouraçados Duke de York, o americano Washington, e os porta-aviões Victorious, Nigéria e Cumberland e cerca de 14 destroyers.

Essas precauções todas se deviam ao fato de as autoridades navais britânicas terem sido informadas de que o encouraçado alemão Tirpitz com seus canhões de 15 polegadas e seu acompanhante encouraçado Hipper, terem deixado Trondhaim e chegado a Altenfjord no extremo norte da Noruega.

O PQ-17 já havia passado a Beard Island e já estava sob o ataque dos aviões e submarinos alemães.
Três mensagens vindas do Almirantado:
       
        Primeira: força de cruzadores deve retirar-se para oeste a toda força.
        Segunda: devido à ameaça de navios de superfície, o comboio PQ-17 deve se dispersar e seguir para Murmansky.
        Terceira: Almirantado para o PQ-17. Comboio deve se espalhar (convoy is to scatter).

A força de cruzadores sob o comando do Almirante Hamilton recebeu ordem para se retirar e seguir para oeste. A ordem valia igualmente para Broome. Ele mandou içar o sinal de espalhar.

O incrédulo Comodoro Dowding repetiu a ordem, mas não compreendeu.

Broome, antão, fez o Kepper aproximar-se e através de um megafone confirmou a ordem e acrescentou “sinto deixar você assim, adeus e boa sorte”.

Com isso o PQ-17 deixou de existir e Dowding desistiu de comandá-lo. Agora era cada um por si.

Cinco horas depois outra mensagem do Almirantado: presume-se que os navios inimigos estejam ao norte de Tronso, mas não, repito, NÃO há certeza se eles estão no mar.

Na verdade os navios alemães retornaram a Altenfjord, já que a força aérea e os submarinos alemães eram suficientes para destruir os navios mercantes do ex-PQ-17.

O que aconteceu nos dias que se seguiram foi um verdadeiro massacre dos desprotegidos navios. Dos 35 que saíram da Islândia, na verdade 34 porque um deles teve que voltar por avaria na máquina, somente 10 chegaram ao seu destino, Murmansky ou Archangel.

A decisão de desfazer o comboio foi do Primeiro Lorde do Mar, Sir Dudley Pound, cujo erro de avaliação causou aquela terrível catástrofe. Diga-se em seu favor que o Almirante Pound estava operando sob terrível stress, lutando contra um tumor no cérebro, do qual veio a falecer em 1943.

Há uma vasta literatura a respeito deste caso com os antecedentes e os detalhes dos afundamentos dos navios.

Um fato curioso: o trawler armado Ayrshire sob o comando do tenente Grandwell, juntou os mercantes Troubador, Ironclad e Silver Sword e os conduziu ao campo de gelo compacto para escondê-los.

Ali eles pararam as máquinas, abafaram os fogos e, aproveitando a carga de tambores de tinta branca do Troubador, trataram de pintar os conveses e as superestruturas ficando camuflados, esperando uma melhor oportunidade para prosseguir viagem.

Em 6 de julho deixaram o abrigo da zona de gelo e, após alguns dias chegaram a Archangel.

A Marinha Mercante na revolta da armada    05-10-07
Cmte. Ernani A. M. Ribeiro - CLC

Na bela Ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara, há, em seu cemitério, um mausoléu onde repousam os restos mortais dos tombados na Revolta da Armada,  movimento ocorrido entre 1891 e 1894 que opôs a Marinha de Guerra ao governo do Marechal Deodoro e, posteriormente, ao governo do também Marechal Floriano.

Podem-se contar, entre aqueles ali sepultados, vários membros da Marinha Mercante, como um Capitão (Comte. Pereira da Cunha), vários Oficiais de Máquinas, um Mestre, marinheiros e carvoeiros.

Por ocasião daquele movimento, vários navios mercantes foram confiscados pelos revoltosos.

Da Cia. Frigorífica Fluminense, os seguintes navios: “Júpiter”, “Marte”, “Mercúrio”, “Paraíba”, “Vênus” e “Urano”. Da Cia. Navegação Lage, o “Adolpho de Barros” e o “Gil Bias”. Do Lloyd Brasileiro o “Meteoro”. Da Wilson & Sons o “Luci”, “Guanabara”, “Vulcano”, “Glória” e “Bitencourt”.

O Comte. Pereira da Cunha, comandando o “Júpiter”, tomou parte no ataque ao Rio Grande.

Morreu devido a um acidente que sofreu quando um canhão o atingiu na cabeça.

O navio mercante “Vênus”, armado em cruzador auxiliar, foi rebatizado “Pereira da Cunha”.

O Clube Naval guarda a relação completa dos que jazem no já mencionado monumento.

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