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Resgate no
Oceano Índico (Tributo a um amigo) 15-05-09
Comte. Antônio Haylton Figueiredo – CLC
ahaylton@click21.com.br
Finalmente pude inteirar-me dos fatos na fonte: o resgate de 27
náufragos no Oceano Índico pelo petroleiro brasileiro
“Jurupema”. Costumo pesquisar os acontecimentos antes de manifestar
sobre eles qualquer análise técnica ou de cunho
jornalístico. No caso específico deste salvamento
não estava inteirado dos fatos como era meu desejo.
Pelo contrário, conhecia vagamente o assunto e tinha sobre ele
apenas informações dispersas, sem detalhes dos momentos
de pavorosa agonia e das difíceis decisões que tiveram de
ser tomadas pelo CLC Ventura a bordo do mínero-petroleiro
“Jurupema”. E foi por acaso, visitando meu amigo, que tomei
conhecimento dos pormenores. Vendo as imagens do vídeo, me senti
participando diretamente do resgate, mesmo porque já havia
comandado o “Jurupema”.
O assunto, fartamente divulgado na mídia na ocasião,
não chegou ao meu conhecimento por me encontrar no exterior em
outra missão. Não dominava, pois, suas
circunstâncias.
Soube então agora que o “Jurupema” fazia sua última
viagem trazendo um carregamento de petróleo cru de Fujairah, nos
Emirados Árabes, para o Brasil, após passar por longa
obra de transformação em Bahraim. O navio iria operar na
Bacia de Campos como cisterna.
Nessa viagem, após ter cruzado a entrada do Golfo de Aden, porta
de entrada do Mar Vermelho, Ventura foi surpreendido, não pela
pirataria que reina atualmente naquela região, mas por um
violento temporal causado pela monção de verão que
varre aquele trecho do Oceano Índico entre junho e agosto de
cada ano.
Com ondas de dez metros de amplitude e ventos de 100 quilômetros
por hora fustigando o “Jurupema”, não tardou para que o primeiro
pedido de socorro fosse recebido a bordo. Um navio de bandeira
cipriota, o cargueiro “Sundance”, carregado de potassa, com 29 pessoas
a bordo, corria sério risco de naufragar na tempestade por estar
fazendo água pelo porão número um e já se
encontrar embicado quase 4 metros.
O pedido de socorro, enviado por telex e recebido às 1600h do
dia 22 de junho de 1996, vinha do Centro de Coordenação
de Resgate – RCC, da Grécia, e informava as coordenadas do navio
e sua situação calamitosa. Ventura se prontificou para
ajudar, por razões humanitárias, e levou cerca de oito
horas para localizar e se aproximar do navio, o que aconteceu por volta
de meia noite daquele dia.
Em contacto pelo rádio com o Comandante ucraniano do “Sundance”,
Ventura informou que o “Jurupema” era um mínero-petroleiro
(ore-oil) de 132.000 toneladas, carregado com quase um milhão de
barris de petróleo, calando 16 metros e que se dispunha a ajudar
no salvamento de vidas apenas.
Recebeu então o apelo do Comandante ucraniano para
seguí-lo de perto, pois tentaria alcançar a ilha de
Socotra, 150 milhas ao norte, na entrada do Golfo de Aden, onde ele
sabia existir uma base russa. Ventura concordou e alterou seu rumo
180º para acompanhar o “Sundance” a uma distância prudente
de 3 milhas.
A situação do “Sundance”, agora embicado mais de quatro
metros, ainda açodado pelo tempo, desenvolvendo uma velocidade
mínima e com precário governo, fazia Ventura acreditar
que ele não alcançaria seu intento. E foi o que
aconteceu, muito mais cedo do que ele esperava.
Às três da manhã o Comandante ucraniano solicitou
aproximação urgente, pois estava abandonando o navio.
Suas bombas não davam mais conta de esgotar o grande volume de
água que entrava no porão e o navio estava
inexoravelmente afundando.
Ventura e sua tripulação, sem descanso algum, partiram
para cumprir seu dever. Só que, a partir do anúncio do
abandono, as comunicações cessaram totalmente (Ventura
soube depois que o navio não dispunha de VHFs portáteis
regulamentares à prova d’água e exclusivos das
embarcações de salvamento). Dois homens passaram ao sabor
das enormes vagas vestindo coletes salva-vidas e soprando seus apitos
de boca desesperadamente.
Uma balsa inflável vazia passou pelo costado. O “Sundance” foi a
pique a meia milha de distância do “Jurupema”. O que fazer?
Estava delineada uma tragédia. De repente, fogos de
sinalização foram divisados pela proa. Ventura,
imaginando ser de uma baleeira, partiu para lá pensando em
resgatar seus ocupantes e depois voltar para tentar fazer o mesmo com
as duas pessoas que passaram no mar. Só que as coisas se
complicaram bastante. A baleeira, com 15 pessoas a bordo, estava com
seu motor quebrado e o navio é que teria que se aproximar dela.
Relatou-me Ventura, e eu senti todo o seu drama, que a
aproximação da baleeira foi muito difícil. Ele
temia abalroar a frágil embarcação, pois sabia
que, se alguém caísse n’água, não
sobreviveria. Eram quinze pessoas lutando pela vida, ora remando na
crista das ondas, ora no seu cavado, como numa gangorra desgovernada.
Todo homem do mar sabe que isso é uma tarefa difícil,
quase impossível.
Ele precisava cuidar também da segurança do seu pessoal
que se deslocava freneticamente no convés. A cada manobra, o mar
varria tudo e as fortes ondas lhe causaram muitas avarias, torcendo
até chapas de aço. Por outro lado, não podia parar
a máquina propulsora sob pena de perder totalmente o governo e
atravessar à corrente.
Foram três ou quatro tentativas frustradas de
aproximação até que, numa manobra mais arrojada,
sua tripulação conseguiu lançar um cabo
manualmente para a baleeira (após desperdiçar todos os
foguetes lança-retinida desviados pelo forte vento) e
mantê-la no costado pelo lado da sombra.
Enquanto navegava lentamente, foi resgatando os náufragos, um a
um, pela escada de quebra-peito. Imaginei-me na alma do Ventura naquele
momento, no abrigo do passadiço do seu navio, querendo ele mesmo
dar a mão a cada um que subia a bordo são e salvo. (Fazer
sombra no mar, para os não afeitos à terminologia,
consiste em dar um dos bordos para os vagalhões e o vento
(barlavento) de forma a ficar atravessado à borrasca e deixar o
outro bordo (sotavento) livre, onde é formado um remanso,
facilitando assim a subida para bordo dos que estão no mar).
Ao resgatar o último homem da baleeira que era o Comandante
ucraniano do “Sundance”, já por volta de 1000 horas, Ventura foi
informado de que havia ainda uma balsa inflável com mais 12
pessoas, inclusive uma senhora, esposa do Chefe de Máquinas. Os
homens vistos na água tinham caído por ocasião do
abandono do navio, soube Ventura. Onde achar a balsa inflável? O
mar e o vento continuavam inclementes e a visibilidade restrita.
Felizmente a balsa era dotada de transponder e pôde ser
rapidamente localizada na tela do radar do Jurupema.
Outro problema mais grave surgia. Como trazer para o costado aquela
coisa ínfima com 12 vidas a bordo que se perdia no cavado das
ondas naquele mar revolto e que teimava em se afastar do navio sempre
que ele se aproximava? Coloquei-me na situação do meu
amigo (só nós podemos fazer isso) e senti o tremor da sua
decisão envolta no manto da razão, acobertado pelo anjo
da guarda daquelas vidas que tanto esperavam dele.
Com enorme dificuldade Ventura e sua tripulação
conseguiram laçar a balsa, amarrá-la ao costado e,
navegando da mesma maneira como tinham feito com a baleeira, resgatar
os 12 náufragos, alguns já sem motivação
(foram içados amarrados) para continuar resistindo e entregues
ao desespero.
Mas, disse-me meu amigo, com o resgate de 27 náufragos, a
vitória não estava completa. Era preciso, depois de quase
12 horas, localizar os dois homens que foram avistados na água.
E ele tentou por mais algumas horas. No entanto, era como encontrar
agulha em palheiro. Não conseguiu e lamentou muito por isso.
Lamentou, com tristeza, ter perdido dois homens ao invés de se
regozijar por ter salvado 27.
O problema agora era alimentar, medicar, vestir e alojar 27 pessoas
(mais do que a sua própria tripulação) e
desembarcá-las com segurança. O porto mais conveniente e
mais próximo no seu caminho para o Brasil era Durban, na
África do Sul, distante dez dias de viagem, e para lá
seguiu entregando todos, sãos e salvos, ao armador grego do
“Sundance”.
Parabéns, ainda que tardio, ao Ventura e sua
tripulação que no momento exato, usando todo seu
aprendizado marinheiro, souberam tão bem executar essa
inesperada e árdua tarefa.
Perdoa, amigo, se demorei a louvar o teu ato. Na realidade louvo a ti e
teus bravos tripulantes do “Jurupema”.
OS JUSTOS DORMEM INOCENTES E ACORDAM HERÓIS.
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