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Jumentos 13-03-09
Comte. Carlos Nardin Lima – CLC
carlos.nardin@gmail.com
Contada hoje, esta
crônica parece história de pescador.
Quem poderia acreditar que, em um cargueiro convencional (tipo Mula
Manca), pudessem ser transportados 300 jumentos no convés, numa
viagem de Fortaleza a Belém?
A força motora que
movia os seringais do Estado do Acre, na década de cinquenta,
era atribuída aos jumentos, razão pela qual eles eram
transportados em grande número para o distante estado.
No lombo desses animais eram transportadas ferramentas, a
produção do látex e até o próprio
homem, que os usavam como meio de transporte.
Adaptados ao
semi-árido do nordeste brasileiro, com seu clima
inóspito, estes valorosos animais poderiam perfeitamente ser
transferidos para o Acre, no extremo oeste do país, onde iriam
resistir à malária, à febre amarela e às
intempéries que assolavam aquela região.
Em 1959 eu, Primeiro
Piloto, e o Imediato Brito, embarcados no “Rio Maracanã” da
Costeira, fomos abordados em terra, no Porto de Fortaleza, por dois
boiadeiros que se identificaram querendo falar com o Imediato.
Apresentações feitas, um dos boiadeiros comunicou ao
Imediato que já estavam prontos, no cais, 300 jumentos para
embarcar no navio. Surpreso o Imediato retrucou que o “Rio
Maracanã” era um navio de carga seca e que eles deveriam estar
falando com a pessoa errada.
- Não Imediato, o
senhor ainda não deve ter sido informado, mas nós
já estamos de posse do Conhecimento de Carga e o agente da sua
companhia já está preparando o Manifesto (documento que
oficializa o embarque) – rebateu ele educadamente.
Respirando
fundo para se refazer do susto o Imediato ponderou.
-
Olha rapaz, eu sou carioca, não sei lidar com jumento e jamais
me ensinaram na Escola de Marinha Mercante qualquer técnica para
transportar animais.
Tirando
o chapéu e coçando a cabeça o boiadeiro
contemporizou:
-
Seu Imediato, pode deixar com a gente. Nossa profissão é
lidar com animais. Nós só queremos que o senhor diga onde
vamos colocar os jumentos.
Já
conformado e levando o assunto para a brincadeira o Imediato respondeu:
-
No porão de carga é que não pode ser. Existe a
possibilidade do convés principal, mas vou precisar de algumas
informações para poder calcular o carregamento.
-
Pois não senhor Imediato. Quais são as
informações?
-
Preciso saber a que altura do chão está o centro de
gravidade de cada jumento para que eu possa calcular a altura
metacêntrica do navio ao final do carregamento.
-
Ah! seu Imediato a gente não sabe o que é isso não
– respondeu o boiadeiro aturdido.
Querendo
facilitar o diálogo e também já na base da
gozação, sugeri:
-
Imediato, trace duas linhas imaginárias em "X" a partir do
tronco do pescoço e do rabo de cada jumento, cruzando a barriga,
até encontrar as patas dianteiras e traseiras e o senhor
terá o centro de gravidade aproximado de cada jumento; depois,
efetuando uma soma algébrica, o senhor terá o centro de
gravidade aproximado da carga de jumentos.
-
Em matéria de gozação até que você
está se saindo bem. Vai ver que você aprendeu isso na
Escola de Marinha Mercante do Pará - deu o troco o Imediato.
Àquela altura, com
gozação ou não, os jumentos tinham mesmo que ser
transportados para Belém, de onde seguiriam para o Acre em outro
navio; com o Conhecimento de Carga e o Manifesto prontos, não
havia mais como recuar...
Regressamos para bordo e
nos deparamos com o cais tomado pelos jumentos. Os boiadeiros
perguntaram se podiam iniciar a faina e o Imediato deu o sinal verde.
Fomos para o passadiço assistir como meros espectadores.
Um dos boiadeiros
segurava o jumento pelas orelhas, o bicho empacava as patas dianteiras
e jogava o corpo para trás; o outro boiadeiro passava uma funda
por baixo da barriga do animal, recorria a alça no dorso e o
guindaste o levantava. Suspensos no ar os jumentos iam
balançando as patas até tocá-las no convés.
Quando sentiam novamente o chão sob as patas davam coices para
trás até se inteirarem da nova realidade.
No final do dia os
trezentos jumentos já se encontravam embarcados além de
duas éguas em baias especiais destinadas ao Jóquei Clube
de Belém.
Os dois boiadeiros
seguiram viagem no navio para cuidar dos animais e ganharam logo um
apelido: “taifeiro de jumento". Eram eles que davam água, alfafa
e ainda limpavam os dejetos acumulados.
Trezentos jumentos
amontoados no convés e ainda disputando fêmeas no cio,
só podia dar em briga. E dava. De vez em quando o "pau comia" e
o passadiço do navio virava arquibancada. Era mais quem queria
assistir a briga lá do alto; alguns tripulantes faziam
até uma "fezinha" apontando o vencedor. A fedentina era tanta
que, nas refeições, tínhamos a impressão de
estar comendo estrume.
Os tripulantes que faziam
quarto de 0000h às 0400h, reclamavam que não conseguiam
dormir quando os jumentos relinchavam em uníssono; a qualquer
hora, os animais iniciavam a sinfonia. Os boiadeiros diziam que os
jumentos só relinchavam quando ia chover. Os tripulantes, por
sua vez, rezavam para que o tempo firmasse a fim de que os "jumentos
meteorologistas" não dessem o aviso antecipado.
Como toda comunidade,
jumentos também têm seu líder. Identificamos
três como tal, logo apelidados de Lampião, Corisco e
Azulão – os mais temidos cangaceiros nordestinos. Quando os
três se encontravam a briga era certa.
Num desses encontros com
mordidas, dentadas e coices pra tudo quanto é lado,
Lampião acertou uma patada na ponta do queixo do Azulão
colocando-o a nocaute. Arriado na popa, Azulão mal piscava os
olhos até que os boiadeiros, que serviam também como
juízes da luta, jogaram um balde de água na sua cara para
que ele aos poucos recuperasse os sentidos. Mas a briga continuou,
agora entre Lampião e Corisco.
A disputa era por Maria Bonita, uma jumenta linda, rosilha, com uma
fina faixa preta no dorso, da cabeça ao rabo, e outra cruzando a
parte dianteira até encontrar as patas. Os boiadeiros tentaram
interferir na briga entre Lampião e Corisco, mas não teve
jeito: Corisco partiu pra cima de um boiadeiro que se protegeu subindo
na escotilha. Nem com chutes nos testículos, aplicados pelos
tratadores, foi possível impedir que Lampião e Corisco
continuassem a brigar.
O Comandante que observava tudo, percebendo que aquilo era uma briga de
vida ou morte, teve a brilhante idéia de acionar o apito do
navio. A briga terminou imediatamente. Os jumentos ficaram tão
assustados que quase jogam n’água Mosquitinho, o menor jumento
do bando que, por sorte, ficou imprensando na varanda.
Chegamos finalmente em
Belém e atracamos ao armazém no.5. Já
imaginávamos a enorme dificuldade que seria desembarcar os
jumentos e temíamos por algum acidente.
Felizmente os boiadeiros
eram muito experientes e inventivos. Improvisaram uma prancha de cinco
metros de largura, rebateram a varanda, fixaram uma extremidade da
prancha no trincaniz e apoiaram a outra no cais. O problema agora era
fazer os jumentos entenderem que deveriam desembarcar por ali.
De repente um boiadeiro segurou Mosquitinho pelas orelhas, deu-lhe um
tapão ao “pé do ouvido” fazendo-o disparar pela prancha
até encontrar o cais. Pronto. Os demais jumentos entenderam a
ordem e desceram voluntariamente pela prancha dóceis e
comportados. Foi a descarga mais tranqüila que assisti em toda a
minha vida de mar.
Curiosos e impressionados
com a atitude dos boiadeiros, perguntamos a um deles:
-
Se o tapa no pé do ouvido do Mosquitinho não desse certo,
o que vocês fariam?
Sacando
do bolso um fogo de artifício conhecido como busca-pé ele
ensinou:
-
Eu amarraria este busca-pé no rabo dele e acenderia. Enquanto
houvesse pólvora para queimar, ele correria por esse cais afora
com todos os jumentos na esteira, como vocês dizem...
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