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Operação Chaval.     13-11-08

Comte. Carlos Nardin Lima – CLC
carlos.nardin@gmail.com

   Você sabe onde fica Chaval?
Nem eu mesmo saberia responder. Pelo menos até receber uma programação para carregar sal nessa cidade em 1958. É um pequeno município a noroeste do Ceará, fronteira com o Piauí, banhado por um braço de rio (Ubatuba) de relativa profundidade.
Eu era Imediato do navio "Guaraúna" – uma chata de invasão adaptada, usada para transporte de tropas na segunda guerra mundial.
Estávamos em Fortaleza quando recebemos a programação para carregar 4.500 toneladas de sal a granel nesse porto.
O 1°Piloto – ex-prático da costa - era o único oficial que sabia chegar a Chaval, visto que nem as cartas de navegação existentes na época davam uma orientação precisa pra se chegar lá. Sendo assim, o Comandante entregou a ele o navio.
Saímos de Fortaleza colados à costa e contando o número de currais de captura de peixes existentes na região. Quando estávamos com o nono curral pelo través de BB o Piloto mandou carregar o leme para BB e aproou na Serra de Ibiapaba. Fomos sondando e, quando o prumo de mão acusou seis metros de profundidade,  o  Piloto mandou parar a máquina, largou o ferro e anunciou ao Comandante: Chegamos!
Com muita dificuldade divisei, pelo binóculo, uma pequena capela dentro do mato. Estávamos próximo da Ponta das Melancieiras e do Pontal das Almas, únicas referências acusadas na carta de navegação, mas o 1º. Piloto já havia prevenido que aquelas indicações não mereciam crédito, tendo em vista que aquela carta era uma compilação de outra inglesa de 1908.
Embarcou então o prático de Chaval. Pés descalços e utilizando uma terminologia marítima difícil de entender, conduziu-nos por um braço de rio até a atracação em um trapiche de madeira. Devido ao pouco calado local, o navio carregaria apenas meia carga.
O sal embarcou em cestos de vime carregados nas costas por inúmeros estivadores que, em fila indiana, o despejavam no porão.
Completada a meia-carga, desatracamos e fomos para mar-aberto onde fundeamos para receber o restante da carga através de alvarengas que atracavam a contrabordo.
Já havia transcorrido mais de 15 dias e a tripulação estava tensa. De repente a tensão explode. Um taifeiro catarinense de 1.98m de altura entra em depressão e, violento, tenta agredir todo mundo. Foi dominado não sem antes desacatar o Comandante. Teve que ser desembarcado.
O encargo seria do 1º Piloto, mas como este estava com sua mulher em lua de mel, fui incumbido pelo Comandante de levar a cabo a façanha. E que façanha...
Quando a primeira alvarenga ficou vazia e foi rebocada para terra, lá fomos nós, eu e o taifeiro, sentados no porão, frente a frente, nos olhando atentamente. Alguém da tripulação do “Guaraúna”, antes da nossa saída, havia prevenido o taifeiro, certamente de gozação:
- Cuidado Catarina, o homem está armado!...
O homem era eu: 1,60m de altura, 65 quilos, vinte e cinco anos de idade, uma imensa vontade de continuar vivendo e longe de poder enfrentar aquela montanha de músculos. E sem arma nenhuma.
Fomos nos olhando até chegar em terra. Como não existia delegacia nem agência da capitania, o desembarque teve que ser homologado na Coletoria Estadual.
Na hora de assinar o Rol de Equipagem para ratificar o desembarque o Taifeiro não concordou com a quantia em dinheiro a receber. Discutimos e o clima passou de tenso a assustador. Eu, lembrando da advertência feita ao Catarina por um tripulante ao sairmos de bordo, mantinha uma das mãos sempre por baixo da camisa, aproveitando-me do benefício da dúvida e fazendo crer que estava de fato armado.  Mas o pior estava por vir. Quando eu quis regressar para bordo a maré não permitiu.
Como não existia hotel no lugarejo, eu e o Catarina tivemos que dormir na sala de uma casa velha de propriedade do agente da companhia. Eu numa rede e o taifeiro em outra. Ninguém ousava dormir primeiro: eu com a mão por baixo da camisa e o taifeiro calado.
Lá pelas tantas o Catarina quebrou o silêncio:
- Olha seu Imediato, eu não tenho nada contra o senhor. O senhor sempre me tratou muito bem. Eu não gosto mesmo é do canalha daquele Comandante...
Foi o bastante para desanuviar o ambiente e para que eu pegasse no sono e só acordasse no dia seguinte imaginando que já estivesse no além-túmulo, tamanha a calma reinante. Voltei à realidade ao ouvir o ronco do Catarina na outra rede.
Felizmente ele havia concordado com o desembarque.

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