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Sonho de
praticante!
30/10/08
OSM Evandro Felisberto
Carvalho - CFM
evandro.felisberto@bol.com.br
O
primeiro embarque como Praticante jamais se esquece. As novidades da
nova profissão, a adaptação à vida do mar,
os superiores hierárquicos, a descoberta de que somos
verdadeiros
analfabetos funcionais em termos de Marinha Mercante, as brincadeiras e
gozação de que somos vítimas e a tendência
em
acreditar em tudo que nos dizem, geralmente com ar professoral e
enganosa sisudez, são etapas inesquecíveis.
Meus
primeiros três meses de praticagem foram no “Washington
Luis”, um super-tanque a turbina, um dos maiores navios da Fronape na
época. Confortável, com superestrutura a meia-nau, sua
Praça de Máquinas era enorme e relativamente silenciosa,
já que seu propulsor ocupava pouco espaço se comparado
com
um navio a motor.
Guardo
na lembrança que, no que diz respeito ao regime militar,
não senti muita diferença do meu primeiro embarque em
comparação com a Escola. O Comandante impunha uma
sistemática militarizada onde só ficava faltando a ordem
unida. Sentir o cheiro da fumaça do seu cachimbo, com mar
encapelado, era um verdadeiro suplício. Suplantei com galhardia,
acho, meu primeiro período de adaptação.
A
etapa seguinte seria concluir minha praticagem em um navio a motor.
Assim foi que, em abril de 1970, embarquei no N/T “Carmópolis”.
Navio pequeno, de apenas 10000 Tpb, tinha uma Praça de
Máquinas abafada, barulhenta, calorenta e sem Sala de Controle.
Suas acomodações eram desconfortáveis. Era
difícil enfrentar mar aberto, principalmente com o navio em
lastro. Mas o desconforto foi superado pela oportunidade da
aprendizagem
e da cordialidade e carinho dos Oficiais e Tripulantes. O Comandante
César Catarino, o Chefe de Máquinas Manoel de Oliveira
(Marreta) – a quem rendo minhas póstumas homenagens - e o
Imediato Nelson (futuro prático de Salvador), tornaram-se
personagens inesquecíveis na minha carreira.
A
minha primeira viagem no “Carmópolis” foi um carregamento de
Gasolina e Óleo Diesel no Rio de Janeiro, para descarga em
Paranaguá e Itajaí. A viagem para Paranaguá e a
descarga nesse porto foi tão rápida que, quando me dei
conta, já estava em Itajaí.
Os
terminais de inflamáveis da simpática cidade catarinense
de Itajaí tinham uma característica interessante. Ficavam
bem próximos um dos outros e a amarração dos
navios
era feita em cabeços fixados numa rua de trânsito intenso.
Descarregamos
primeiramente no Terminal da Esso e deveríamos
manobrar para o Terminal da Shell para concluir a descarga. Eu ainda
gozava os 5 dias iniciais de adaptação concedidos pelo
Chefe Manoel, ou seja, período para conhecer o navio em si, o
maquinário, o sistema de carga/descarga, o sistema de
segurança e salvatagem, etc. Durante o lanche da tarde o
Imediato
Nelson, que já me havia informado das belas louras que eu iria
encontrar em terra, convocou-me para guarnecer o telégrafo do
passadiço na manobra de mudança da Esso para a Shell.
Com
prático a bordo, máquina balanceada e pronta, eu
não pensava em outra coisa a não ser em terminar logo
aquela manobra e ir para terra admirar as louras catarinenses.
Certamente eu iria arranjar uma namorada loura e linda como a Candice
Bergen. Mais entusiasmado eu estava em virtude da
afirmação do Imediato de que as loiras, além de
lindas, tinham uma caída especial por praticantes. Eu contava os
minutos e segundos. Ir para a Praça de Máquinas, nem
pensar.
A
manobra era simples. O outro terminal estava ao alcance da vista e a
impressão que se tinha era que a mudança poderia ser
feita
apenas com a movimentação dos cabos de
amarração. Nada poderia dar errado. Mas deu. Assim que o
navio largou os cabos e deu máquina adiante, uma ventania
súbita forçou o navio para o meio do canal. Senti um
tranco e me assustei com a ordem brusca do Comandante: máquina
toda-força-atrás. Mas não teve jeito. Nem pra
frente nem pra trás. O navio estava encalhado. O Comte
César Catarino mandou então largar o ferro e calmamente
me
ordenou:
-
Praticante dispensa a máquina. Vamos jantar. E se virou para
deixar o passadiço. Foi quando ouvi o Primeiro Piloto indagar:
-
Comandante! O que eu escrevo no Diário?
De
onde estava Catarino olhou para o terminal a vante, olhou para o
terminal a ré, e divisando um casarão em terra entre os
dois terminais, determinou ao Piloto:
-
Navio encalhado no Rio Itajaí tendo pelo través de
boreste
a “boite” Chão de Estrelas.
Depois
do jantar, enquanto a tripulação de convés
aguardava na popa a subida da maré para o desencalhe do navio,
um
marinheiro mais folgazão me advertiu:
-
Pratica, se prepara e guarda debaixo que, quando o navio voltar ao Rio,
vai embarcar o Comandante Nardin, o terror dos praticantes de
máquina. Sua folga vai acabar. Você vai ter que ficar
direto na Praça de Máquinas.
Claro
que acreditei na advertência. Saí de fininho
já imaginando o sofrimento que seria ficar direto naquela
Praça de Máquinas acanhada.
O
desencalhe foi bem sucedido, mas a faina, seguida da
atracação, acabou tarde e não pude ir mais para
terra ver a minha Candice Bergen.
Nessa
noite tive um pesadelo. Sonhei com o tal Comte. Nardin que me
aparecia tal qual o pirata do Rum Bacardi, com papagaio e tudo, e que,
com uma espada ameaçadora apontada para mim do mastro do
galeão bradava:
-
Praticante, fera preguiçosa, quero você na Praça de
Máquinas a pé de galo.
Acordei
sobressaltado. Era de manhã e o navio já estava em
viagem. Minha folga de adaptação havia terminado. Hoje
seria apresentado ao motor MAN com seus terríveis cilindros. As
loirinhas catarinenses descritas pelo Imediato não passaram de
imaginação fugaz. Hoje a realidade seria outra: a
Praça de Máquinas quente, apertada e barulhenta do N/T
“Carmópolis”.
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