Uma viagem pra
ninguém esquecer... 21/08/08
Comte. Ernani A. M. Ribeiro -
CLC
ernani.ribeiro@terra.com.br
Em 1973 substitui meu
velho amigo, CLC Walter Nieling no comando do navio “Itagiba” (o novo),
do extinto Lloyd Brasileiro, no porto do Rio de Janeiro.
O
objetivo deste artigo é descrever uma viagem bastante complicada
que fiz naquele navio, porém, deixem-me falar um pouco do
Nieling. Andamos embarcados em 1953 no “Loide Argentina”, navio da
classe nações, viajando para o norte da Europa. Quando
chegávamos a Bremen, primeiro porto na Alemanha, os
práticos locais ficavam espantados ao ouvir um brasileiro falar
fluentemente alemão. É que o Nieling, embora nascido no
Brasil, estudou em uma escola alemã, escrevia cartas para sua
família em alemão, as recebia em alemão, pensava e
creio que sonhava em alemão. Em sua casa a língua oficial
era o alemão. No seu português, notava-se um leve sotaque
estrangeiro. Quando, na Alemanha, perguntavam o que um alemão
estava fazendo num navio brasileiro, respondia que era um
deutsch-brasilianische . Era uma boa pessoa e bom marinheiro.
Voltemos ao “Itagiba”.
Na ocasião ele estava na linha da Austrália.
Iniciava a viagem no Rio de Janeiro, escalando Santos, Paranaguá,
Rio Grande, Buenos Aires, dali, pelo Estreito de Magalhães,
direto a Sydney, Melbourne, Brisbane e New Castle. Na viagem que estou
descrevendo, ele voltou pelo Canal de Panamá, escalando Papeete,
Tahiti, para receber 60 tons de gasoil, Cristobal no Canal, La Guaira e
de lá direto ao Rio de Janeiro. A viagem levou seis meses.
O
“Itagiba” era um lindo e moderno navio da classe liners, com um motor
principal de 18.000 BHP. Todo automatizado, o MCP podia ser comandado
pelo passadiço, desenvolvia 22 nós de velocidade. Consumia
60 toneladas de combustível/dia e era equipado com tudo o que de
mais moderno havia na época de sua construção
(1972).
Foi uma viagem de muitos incidentes e acidentes, como veremos adiante.
Na travessia de Buenos Aires para Sydney pelo Estreito de
Magalhães, o nosso destilador sofreu avaria e, por isso, tivemos
de escalar em Wangharei (norte da Nova Zelândia) para aguada.
Afora isso, a viagem transcorreu normalmente, isto é, com
três dias de bom tempo e três de mau tempo, assim mesmo
navegando pelo paralelo de 34 graus de latitude.
Na
chegada a Sydney, como era de praxe, a estiva não trabalhou. O
dia todo foi ocupado com a vistoria do equipamento de carga e descarga,
como paus de carga, cábreas, guindastes, todo o tipo de massame e
poleame, inclusive de manilhas, conferindo com os respectivos
certificados. Se algum item não estivesse em ordem, teria que ser
regularizado sob pena de a estiva não trabalhar. Os estivadores
australianos são muito exigentes.
Devido ao alto consumo de combustível, era da maior
importância abarrotar os tanques para a viagem de volta. Por isso,
na viagem de Melbourne para Brisbane, onde abasteceríamos, o
Chefe de Máquinas resolveu concentrar em um só tanque o
óleo pesado existente a bordo, para poder receber o máximo
naquele porto. Infelizmente a famigerada bolha deu o ar da sua
graça e provocou um enorme vazamento pelos suspiros, espalhando
óleo pelo convés. Na ocasião, estávamos
enfrentando um vento duro de nordeste e borrifos de óleo sujaram
a superestrutura, a baleeira de bombordo, a escada de portaló,
enfim, o navio ficou irreconhecível. Mandei todo o pessoal fazer
a limpeza (felizmente tínhamos bastante detergente), mas,
definitivamente, a sorte não estava ao nosso lado. Aconteceu que
o navio sofreu um blackout , apagou completamente. Como não
dispúnhamos de motor de emergência, somente um conjunto de
baterias, foi necessário desligar os circuitos não
essenciais, inclusive o das câmaras frigoríficas de carga
para poder por em funcionamento um MCA. Chegaríamos a Brisbane na
parte da manhã do dia seguinte, porém, como não
havia tempo suficiente para limpar o navio, mandei uma mensagem ao nosso
agente avisando que estávamos com problema de máquinas.
Chegando ao porto com vinte e quatro horas de atraso, mas com o navio
limpo, ao serem abertos os escotilhões para o carregamento de
mais trezentas toneladas de caixas de carne, tivemos uma
desagradável surpresa. A carne que já havíamos
carregado em Melbourne estava mole e descongelando. Durante as
providências para acender o navio, esqueceram de religar o
circuito das câmaras frigoríficas de carga. Foi uma
confusão. Autoridades sanitárias, P&I, embarcadores
etc. examinando a carga e tirando fotos. Fiquei numa
situação embaraçosa. Estaria a carga perdida?
Deveria carregar as trezentas toneladas restantes? O nosso agente
já havia me informado que as autoridades e os embarcadores
somente concordariam em embarcar a carne, se a existente a bordo fosse
descarregada, levada para um armazém frigorífico, os
estrados das câmaras substituídos e uma limpeza e
desinfecção geral fosse providenciada. Telefonei para o
nosso delegado em Tókio, relatando o caso e pedindo
instruções, mas acho que ele não entendia nada do
assunto. Simplesmente mandou que eu mesmo decidisse o que fazer. Estava
diante de um dilema: se a carne estivesse perdida, a viagem pelo Canal
de Panamá seria em vão, sem contar com as despesas com as
taxas cobradas pela passagem do Canal. Por outro lado, descarregar a
carne já carregada em Melbourne, levá-la para um
armazém frigorífico, adquirir novos estrados e desinfetar
as câmaras, seria uma despesa enorme que o frete não
compensaria.
Àquela altura, o Chefe de Máquinas me garantiu que poderia
recuperar a carne que descongelou parcialmente. Tomei a decisão
de arriscar, prosseguindo a viagem para La Guaira via Canal de
Panamá, sem carregar as restantes trezentas toneladas.
Como o purificador de óleo diesel para os MCAs estivesse
avariado, causando maior consumo desse combustível, escalamos o
porto de Papeete para receber sessenta toneladas de gasoil.
Ninguém, de bom senso, poderia imaginar que alguma coisa mais
aconteceria. Pois aconteceu.
Recebemos o combustível em pouco tempo em um cais próprio
para esse fim. Em outro cais próximo, perpendicular ao nosso,
estava atracado o lindo e novinho navio de passageiros norueguês
“Royal Viking Sea”, cheio de turistas.
Quando desatracamos e largamos o rebocador, o prático pediu meia
força atrás. Ele queria fazer cabeço para
então carregar o leme para bombordo em direção
à saída da barra. Assim que o navio ganhou seguimento a
ré, apagou e, sem máquina, foi em direção
à popa do navio de passageiros. Mandei largar um ferro e logo
outro, mas eles garraram, e o navio colidiu de popa com a alheta do
norueguês, causando alguma avaria e muito susto nos passageiros.
Como o nosso navio estivesse apagado sem possibilidade de suspender os
ferros, impedia a saída do navio de passageiros. O Harbour Master
veio a bordo trazendo uma carta do Comandante norueguês, me
responsabilizando pelas avarias e pelo atraso na saída. Assinei
sem pestanejar e ainda achei “barato” diante da situação
em que me encontrava. Logo que conseguimos acender o navio, suspendemos
e deixamos o porto com destino ao Canal de Panamá, Cristobal e La
Guaira. Durante a passagem pelo Canal, rezei para que não
acontecesse outro desastre. Felizmente tudo correu bem. Depois de uma
breve estadia em Cristobal, prosseguimos viagem para a próxima
escala, La Guaira. Tínhamos esperança de entrar logo
naquele porto, mas ao nos aproximarmos vimos uns quinze navios fundeados
na barra, esperando entrada. Pelo VHF comuniquei à autoridade
portuária que iria descarregar carga perecível. Mas eles
disseram que carne congelada não nos daria prioridade de entrada.
Passamos ainda quase vinte dias aguardando ordens para entrar no porto,
racionando água. Para minha sorte (já não era sem
tempo), ao atracar o navio, soubemos que os recebedores da carga (carne)
estavam ansiosos para descarregá-la, apesar de saberem que ela
esteve temporariamente descongelada. È que suas fábricas
estavam quase parando por falta de material para processar.
(Aliás, soube depois que a carne era para ração
para cachorro).
O
resto da viagem até o Rio de Janeiro transcorreu sem mais
problemas.
Os
colegas vão pensar: por que o Comandante não instaurou
inquérito? Por que não pediu substituição do
Chefe de Máquinas? Afinal houve o derrame de óleo, o
esquecimento de restabelecer o funcionamento das câmaras
frigoríficas que causou a quase (?) avaria na carga.
Pois bem, às vezes é preferível passar por cima dos
regulamentos, dos procedimentos e seguir o feeling de Capitão,
mormente quando se está no outro lado do mundo, sem contar com
nenhum apoio.
A
famigerada bolha com a qual os maquinistas justificam o transbordamento
de óleo, realmente existe, embora nem sempre seja causa; outros
fatores concorrem para esse desastre.
De
qualquer forma, não entrando em Brisbane com o navio todo sujo de
óleo, evitou uma pesada multa e talvez conseqüências
piores.
A
decisão de não carregar a carga de carne de Brisbane
também, ao final, mostrou-se acertada.
A
colisão com o navio de passageiros foi uma fatalidade. Isso pode
acontecer com qualquer um. São os percalços da
profissão.
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