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O
marinheiro surdo 08-08-08
Comte. Carlos NardinLima
- CLC
carlos.nardin@gmail.com
Navegar no Rio Amazonas
é tarefa inesquecível para quem aprecia a natureza e se
deslumbra com as maravilhas daquela região. Entretanto, nem tudo
são flores. Devemos ter em mente que poderemos encontrar muitos
obstáculos ao longo do rio, sendo os mais comuns: madeira de
grosso calibre boiando, oferecendo sério risco à
navegação, principalmente para quem navega em sentido
contrário à corrente e visibilidade crítica
produzida pela fumaça das queimadas da floresta semelhantes a
espessos nevoeiros.
O estreito de Breves,
obstáculo natural, é dotado de muitas curvas e
estrangulamentos que chegam a cem metros de largura (menos do que o
comprimento do navio), em profundidades consideráveis. A
utilização do Radar no estreito é uma constante; a
vigilância do passadiço deve ser muito bem exercida pelos
vigias dos navios que por ali trafegam e os timoneiros devem ser
selecionados entre os melhores de bordo. Contudo, nem sempre se
consegue
um resultado ideal dessa equação.
Tripulações reduzidas, indisposição ou
fadiga, horário das refeições, isso tudo nos
obriga
a escalar indistintamente qualquer marinheiro para executar a tarefa de
timoneiro.
O tripulante de
convés Luis, bom marinheiro, potiguar, cabelo carapinho tendendo
para louro, estatura média e olhos puxados tipo oriental,
exímio conhecedor de poleames e massames, fainas distintas do
convés, era um excelente timoneiro... antes de ficar surdo. E a
tal ponto que, ao lhe fazermos uma pergunta, respondia algo que nada
tinha a ver com o questionado. Mesmo assim, prescindir da
permanência do seu Luis como membro da nossa
tripulação, era algo que não cogitávamos
por
se tratar de um excelente tripulante. Chegar, porém, ao extremo
de indicá-lo para timoneiro na travessia do Estreito de Breves,
era algo inimaginável, mas isso, um dia, acabou acontecendo. O
timoneiro de serviço sofreu um súbito distúrbio
intestinal e precisou ser substituído urgentemente. O jantar
estava sendo servido; parte da guarnição de convés
ainda estava no banho, recompondo-se de uma faina de limpeza de
óleo no convés e apenas o seu Luis estava
disponível. Não teve jeito.
- Seu Luis, corra
até ao passadiço e substitua o Zé Severino que
está passando mal - ordenou o Mestre de Convés.
Seu Luis, sempre
solícito, se apressou em cumprir a ordem.
Confesso que preferia que
tivessem me avisado antes. Eu mesmo poderia assumir o timão.
Seu Luis subiu para o
passadiço e assumiu o governo do navio.
O sexto sentido que todo
Comandante adquire ao longo do exercício da profissão me
induziu a ir até a casa do leme. Até então, seu
Luis se saía muito bem. Conduzia o “Carmopolis” com extrema
maestria; também pudera, desde que assumiu o leme só
conduziu o navio em linha reta. Acontece que uma curva para boreste se
aproximava e ia exigir uma guinada brusca do navio. O prático
ordenou a seu Luis:
- Quinze graus de leme para boreste, marujo!
E
seu Luis repetiu como de praxe.
- Todo leme para bombordo, seu prático.
Felizmente, eu havia
chegado a tempo para interferir na manobra. Imediatamente corrigi:
-
Não, seu Luis, todo leme para boreste – gritei bem alto ao
ouvido dele que desta vez entendeu e cumpriu.
Conclusão, seu
Luis que já começara a guinar para bombordo, desfez o
leme
para boreste, mas, devido ao seguimento, a pouca largura do rio e a
curva acentuada, não houve mais tempo para corrigir o curso e o
navio acabou indo de encontro ao barranco e saiu arrastando o costado
pelo estreito afora, antes de completar a curva para boreste, como o
Prático ordenara.
Um fato tragicômico
então ocorreu. A popa do “Carmópolis” saiu varrendo a
beira do barranco derrubando pequenas árvores e, em dado
momento,
avançou uns metros terra a dento. O barraco de palha de um
caboclo, situado bem na curva do rio, próximo à margem,
quase foi atropelado pelo navio; as luzes da popa iluminaram o
barraco, causando certamente uma sensação de pavor
inusitado àquela família. Enquanto o navio se arrastava
pelo barranco o caboclo e seus nove filhos saíam em disparada
por
baixo da parede de palha da moradia, enquanto dois cachorros vira-latas
latiam sem parar. Por fim, saiu a mulher do caboclo com um filho nos
braços e outro no buxo, também em disparada.
Ao
concluir a manobra, olhamos para ré e vimos um princípio
de incêndio próximo à casa de palha; certamente a
lamparina a querosene virou e provocou o incêndio, imaginamos...
Felizmente
tudo não passou de um susto. Se acontecesse o pior já
imaginávamos o sensacionalismo da imprensa com suas criativas
manchetes:
“Navio
atropela barraco no Rio Amazonas e mata família inteira” ou
“Navio
desgovernado sobe barranco no Rio Amazonas e mata família
ribeirinha”.
Certamente
ninguém acreditaria.
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