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Os ferros do “Kalu” 24-07-08
Comte. Carlos Dufriche – CLC
dufriche@pcfa.com.br
Em 1963, assumi o comando do “KALU”, um dos três “Liberties” que
tivemos em nossa Marinha Mercante. Os outros dois foram o
“MARINGÁ”, igualmente da Companhia de Navegação e
Comércio Panamericana, e o “BRUCE THOMAS”, depois rebatizado
“CAIÇARA”, da Netumar. Mais tarde, comandei um outro Liberty, sob
bandeira liberiana, o “POMONA”, de propriedade do dono da
Panamericana.
Embarquei no Rio. O navio estava ao largo, tendo acabado de sair de uma
docagem. Informalmente soube que o comandante a quem eu estava
substituindo fora demitido por ter perdido dois ferros na barra de
Santos, em duas viagens consecutivas. Na primeira vez, logo perceberam e
nada de sério aconteceu. Na segunda, de noite, só se deram
conta quando o “KALU” bateu em outro navio também fundeado, com
pequenas avarias em ambos.
O “KALU” tinha uma giroscópica Sperry Mk.14, das grandonas, e um
precário e primitivo radar montado em um pedestal, dotado de uma
pequena tela vertical. Um bom camarote, com a sala de estar se
comunicando diretamente com o passadiço. Seu imediato era o Mario
Nazareth Henderson e piloto, só um, o cabo-verdiano Antonio
Carlos Rocha. Apesar de ser na época apenas mestre-de-cabotagem,
foi um dos melhores oficiais com quem tive oportunidade de embarcar.
Saímos do Rio em lastro, em viagem direta a Tutóia, porto
que eu não conhecia. Lá, mais para dentro do delta do
Parnaíba, havia um pequeno porto, denominado Igoronhon, onde
carregaríamos 5.000 toneladas de sal a granel. Na época,
não se pensava muito em momentos fletores e forças
cortantes e com cinco porões, três a vante da
máquina e superestrutura e dois a ré, toda essa carga
seria concentrada apenas no 2 e no 4.
Os planos para carregamento de sal a granel eram feitos com base nos
das viagens anteriores, e o “KALU” já havia carregado em
Igoronhon da mesma forma. Outras 5.300 toneladas seriam posteriormente
carregadas em Macau, com o navio fundeado a dois ferros, a mais de 10
milhas de terra.
A viagem foi rápida, com o navio vazio, casco limpo e bom tempo,
marcha média de 11 nós. Deveríamos chegar à
barra de Tutóia à noite e minha intenção era
avistar o fraco farol local, aproximar-me da costa até uma
distância segura, medida pelo radar, e fundear, para entrar na
manhã seguinte.
Na tarde que antecedia a chegada à barra, nosso pequeno radar
“deu o fora”. Não há problema, pensei, temos a giro.
Poucas horas depois, antes de escurecer, a giro parou de funcionar.
Fiquei um pouco preocupado, mas logo encontrei uma
solução. Como tínhamos duas repetidoras nas asas do
tijupá, poderia utilizá-las para marcações
polares e quando chegássemos à marcação
verdadeira desejada do farol, com base no rumo magnético de
governo, o piloto daria um grito. Nesse momento, eu pararia a
máquina, daria um pouco de seguimento para ré e largaria o
ferro de boreste.
Na proa, o mestre e o carpinteiro deixaram o ferro pronto a largar e
aguardavam minha ordem, que tencionava dar com um grito de “larga”.
Não tínhamos telefone para a proa ou popa e
“walkie-talkies” não eram ainda utilizados a bordo, pelo menos na
“bitola estreita”.
Navegando com máquina devagar, aguardava o grito do piloto e de
repente ouvi o silvo de um apito de boca. Era o Rocha que resolvera
substituir o grito combinado pelo apito, pensando em melhorar a
comunicação. Mas a idéia foi infeliz já que
o mestre, lá na proa, imediatamente largou o ferro, sem observar
o seguimento do navio. Era a primeira manobra de fundeio que o mestre
fazia sob o meu comando. Mais tarde ele se desculpou dizendo que
interpretara o apito como sendo minha ordem para largar o ferro.
Quando ouvi a amarra correr, ordenei toda força atrás.
Não adiantou, o seguimento era grande, e lá se foi o
terceiro ferro, com um pedaço da amarra. Desisti de usar o
outro e afastei o navio da costa para voltar ao local de embarque do
prático na manhã seguinte. Felizmente tínhamos um
ferro sobressalente, bem menor, mas que “quebraria o galho” em
Macau.
No dia seguinte, entramos e atracamos em Igoronhon. Sem nenhum
progresso desde o tempo das pirâmides, o sal era carregado em
cestos, nas costas de um exército de homens que tinham uma
estreita prancha para subir ao convés e outra para descer, isto
nos porões 2 e 4. Era uma fileira cerrada, ida e volta, cada
viagem com 42 quilos nas costas (peso médio de cada cesto).
Após despejar o sal no porão, os homens recebiam uma ficha
de couro e voltavam apressados, para novas viagens. Não eram
estivadores, estes vinham de Tutóia, passavam o dia no
convés jogando cartas e ganhavam pelo trabalho que os
carregadores executavam.
Carregadas as 5.000 toneladas, em cerca de uma semana, fomos fundear
próximo a Tutóia para aguardarmos a maré de lua,
que nos permitiria transpor a barra. Recebi então um recado da
agência: o agente da capitania queria falar comigo antes de
despachar o navio. Na hora marcada, nosso agente enviou uma canoa para
me apanhar. Levei comigo o piloto Rocha e lá fomos para terra.
Saltamos numa praia em frente ao navio, tendo que tirar sapatos e meias
para não molhá-las. A cidade ficava a uns dois
quilômetros de distância. Aproximou-se um rapaz,
perguntou-me se eu era o Comandante e quando lhe respondi que sim,
apontou para dois cavalos, dizendo que tinham sido enviados pela
agência. Ótimo, montamos e lá fomos a passo,
até a agência da capitania. Lá, amarramos os cavalos
na porta e apresentei-me ao tenente.
O problema exposto pelo tenente era que a tonelagem líquida do
“KALU” era de 4.380t e eu havia carregado 5.000 de carga. Assim, segundo
ele, o navio estava sobrecarregado. Com paciência, expliquei-lhe
da melhor maneira possível o que era tonelagem bruta,
líquida e porte bruto, este de 10.700 toneladas. O tenente
não acreditou muito na minha explicação e disse que
enviaria um rádio para certificar-se com seus superiores.
Indecisos entre passar a noite em terra e voltarmos para bordo, eu e o
Rocha fomos dar uma volta pela rua principal. Tutóia não
tinha veículos motorizados e as ruas eram calçadas com
conchas. Ao passarmos por um bar, ouvi um grito: “Dufriche !”. Encontrar
alguém conhecido em Tutóia era o que eu nunca poderia
esperar. Pois bem, era o meu colega Miranda que ali se encontrava no
comando da traineira “ALMIRANTE SALDANHA” (esta pode ser tema de outra
história).
- Amarra o cavalo e vamos tomar uma cerveja que hoje é meu
aniversário, decretou ele.
Aceitei e me veio uma idéia logo exposta: quem sabe a
traineira não poderia garatear o ferro perdido, dias antes. Podia
- disse o Miranda - mas só amanhã de manhã e
você vai ter que passar a noite aqui em terra para comemorarmos.
Aceitei, e após entregar os cavalos ao agente, este nos indicou
onde poderíamos dormir, nos fundos de um armazém, onde
várias redes estavam armadas.
Como Miranda me contou, a traineira estava ali arribada. Saíra
do Rio em busca de peixe nos Abrolhos, não encontrara, fora
subindo a costa e já estavam no Maranhão, sem
encontrá-los. Eu já conhecia a traineira, pois antes de
embarcar no “KALU”, quase me transformei em pescador e aceitei seu
comando. Desisti em tempo, apesar de ter começado a estudar
ictiologia, a ciência dos peixes.
Encurtando a história, no dia seguinte preparamos uma
garatéia e lá fomos, primeiro ao navio, para combinar
nossa operação. O radar e a giro, que já haviam
sido reparados por Rocha durante a estadia em Igoronhon, seriam
utilizados para orientar a traineira, na área em que
havíamos perdido o ferro. A traineira tinha fonia, mas o navio
não. O rádio VHF ainda não havia chegado aos navios
brasileiros. A comunicação, num só sentido,
seria feita por bandeiras do C.I.S. Bem, passamos o dia inteiro
navegando pra lá e pra cá e enjoando. Infelizmente, nem
sinal do ferro que até hoje lá deve estar enterrado.
Como programado, fomos para Macau, onde utilizamos o ferro
sobressalente, talingado ao que sobrou da amarra de boreste. Foram 17
dias em alto mar, primeiro aguardando o carregamento de outros navios e
depois lentamente recebendo o sal que vinha de terra em barcaças
à vela e era transbordado para o navio em tinas de aço.
O armador, ainda que cansado de comprar tantos ferros para seu navio,
nos sucateiros do Caju, não me demitiu. Trabalhei com ele mais
quatro anos, um deles em seu escritório.
P.S. Antonio Carlos Rocha, o excelente piloto do "Kalu",
conseguiu, com muito sacrifício, obter sua carta de 2º
Oficial de Náutica. Muito sacrifício, pois tinha uma
família numerosa e precisava estar sempre embarcado. Faleceu com
toda a tripulação (menos um sobrevivente) no
naufrágio do "Mansur Simão", na costa do Rio Grande, em 3
de julho de 1979. Um filho seu é hoje Oficial de Náutica.
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