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Praticando no “Itagiba” 13-06-08
Comte. Ernani A. M.
Ribeiro - CLC
ernani.ribeiro@terra.com.br
No ano de 1940, embarquei no Rio de Janeiro, como Praticante de Piloto,
no navio “Itagiba” da extinta Companhia Nacional de
Navegação Costeira. Naquele tempo, para se ingressar na
Marinha Mercante, bastava o candidato submeter-se a uma prova
sumaríssima, apenas para não embarcar completamente cru.
Algum conhecimento de marinharia, de hierarquia a bordo e do
Regulamento
para as Capitanias dos Portos.
O “Itagiba” era um navio misto, isto é, de carga e passageiros,
de 2.150 toneladas brutas, 87 metros de comprimento, 13 de boca,
máquina alternativa, caldeiras a carvão. Desenvolvia
cerca
de onze nós de velocidade.
Apresentei-me a bordo na hora da saída, ocasião em que
levei a primeira bronca do Chief Mate. Ele disse que eu deveria ter-me
apresentado no dia da minha nomeação. Tudo bem, ele devia
ter razão, mas como eu poderia saber se ninguém me disse
nada?
Na saída, depois que me apresentaram ao Comandante, já no
passadiço, deslumbrado com todas aquelas novidades, assistindo a
manobra de desatracação, o Comandante com um apito e o
megafone dava ordens para a proa. Para a popa, quando o pessoal demorou
a largar os cabos, ele me mandou lá com um recado malcriado para
o Primeiro Piloto, mas não fui besta de transmitir o desaforo,
apenas transmiti o essencial.
Passada a barra, o navio começou a balançar e, com aquele
cheiro de maresia misturado a óleo de peixe que os marinheiros
passavam nos metais, senti aquela sensação horrorosa de
enjôo. Agüentei o quanto pude, mas não teve jeito.
Fui
para a asa do passadiço e descarreguei tudo o que tinha no
estômago. Infelizmente não reparei que em baixo estava o
farol de navegação de boreste. O Comandante e o Segundo
Piloto não se compadeceram, muito pelo contrário, deram
aquela risadinha divertida.
Dispensados o pessoal da proa e popa, o Imediato subiu para fazer o seu
quarto e foi logo dizendo:
-Praticante, você faz quarto comigo, de 16 às 20 e de 04
às 08 horas.
-Sim senhor, respondi pálido quase esverdeado.
O navio ia para Santos e o Comandante, depois de tudo safo,
traçou o rumo para passar a uma milha da Ponta do Boi. O
imediato
fez uma marcação e me mandou, junto com o marinheiro de
quarto, zerar a barquinha. Naquele quarto aprendi a famosa
marcação de quatro quartas,
isto é, quando o farol de Castelhanos estava a 45º da proa.
Como o passadiço era perpendicular ao costado, ele (o Imediato),
se posicionava na metade do ângulo de 90º que a asa do
passadiço fazia com o costado.
Quando o farol passava pelo pé-de-carneiro que havia no
ângulo, e depois de saber do marinheiro do leme se o navio estava
a caminho, gritava:
- Praticante marca a hora e vai ver a barquinha.
Eu já havia aprendido que o ponteiro maior do mostrador indicava
as milhas e o menor, os décimos. Quando o farol passava pelo
alinhamento dos pés-de-carneiro do corrimão, isto
é, de través, ele mandava fazer a mesma coisa. Anotar a
hora e ver a barquinha.
- Praticante, agora você vê quanto o navio andou das quatro
quartas até o través. Essa diferença é
igual
à nossa distância do farol.
Aquele negócio dele utilizar o pé-de-carneiro para fazer
marcação era puro comodismo. Ele não queria subir
ao tijupá, retirar a capuchana da agulha padrão, de
metal,
sempre brilhando, mas cheia de óleo de peixe, e fazer a
marcação.
E assim passou o quarto, até a hora do jantar que, claro,
dispensei.
Não posso dizer que foi uma estréia estrondosa, mas tenho
certeza de que muitos praticantes tiveram desempenho mais desastroso do
que o meu.
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Praticando no “Itagiba”(II) 27-06-08
Comte. Ernani A. M.
Ribeiro - CLC
ernani.ribeiro@terra.com.br
O “Itagiba” era um
navio de muito poucos recursos para a navegação.
Possuía apenas uma agulha magnética padrão, no
tijupá, com alidade para marcação, uma
magnética de governo no passadiço, uma sobressalente
guardada em um estojo de madeira no armário da Casa de
Navegação e uma agulha de teto em cima do beliche do
Comandante.
Tinha uma máquina de sondar Thompson (somente para grandes
profundidades) e o odômetro de superfície. Apenas isso.
Radiotelegrafia, só ondas longas. O pessoal brincava dizendo que
os pontos e traços caiam na esteira do navio.
No inverno, para demandar as barras de Paranaguá,
Florianópolis e Rio Grande, com cerração, era na
base do odômetro e prumo de mão.
Os Comandantes eram verdadeiros práticos da costa. Havia alguns
que nem usavam as cartas náuticas - já sabiam os rumos de
cor. Tive um Comandante que simplesmente não confiava nos
pilotos. Era um homem de idade, próximo a aposentadoria
compulsória; dormia cedo e acordava mais cedo ainda. À
noite, antes de se recolher, mandava alterar o rumo “dez graus para
fora”. Pela manhã, ao levantar, alterava para vinte graus para a
costa e, ao identificar algum ponto conhecido, recolocava o rumo normal.
De vez em quando, deixava o seu camarote, que ficava atrás da
casa de navegação, para chamar a atenção do
marinheiro do leme que saia mais de três graus do caminho – ele
vigiava o rumo pela agulha de teto. Os pilotos tinham que
chamá-lo quando avistavam alguma embarcação vinda
pela proa.
Indo
e voltando do Sul, tínhamos que escalar em Imbituba para
abastecer de carvão. Não obstante a poeira que ele
espalhava, apesar de colocadas sanefas em torno dos agulheiros das
carvoeiras, tínhamos que permanecer com o uniforme branco, o que
exigia muito cuidado para não nos encostarmos em algum lugar
sujo. Eu, Praticante, só tinha dois uniformes brancos.
Era
comum, quando havia vento forte do Sudoeste, irmos buscar abrigo ao
Norte da Ilha Coral, onde permanecíamos com o navio fundeado
até o tempo melhorar, pois Imbituba era completamente
desabrigada
para os ventos do Sul.
Até hoje não
sei qual a razão por que o Comandante e o Imediato não
gostavam que os Oficiais conversassem com os passageiros (como eu disse
no primeiro artigo, o navio era misto), principalmente do sexo
feminino.
Era profundamente constrangedor.
Os
camarotes dos Oficiais de Convés ficavam no convés
principal a boreste. De vante para ré, o do Imediato
(individual), o do Primeiro Piloto com o Praticante, o do Segundo
Piloto
com o Segundo Radiotelegrafista (camarotes para dois), depois o
banheiro
(coletivo para os Oficiais) e paióis.
Sob mau
tempo, como a borda-livre era pequena, o mar embarcava e, não
raras vezes, ao abrir a porta do camarote para cumprir o serviço
de quarto, levava-se uma boa borrifada de mar. Meus sapatos estavam
sempre úmidos.
(Continua no próximo número)
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Praticando no “Itagiba” (III) 11-07-08
Comte. Ernani A. M.
Ribeiro - CLC
ernani.ribeiro@terra.com.br
Quando embarquei
no
“Itagiba” tinha apenas dezessete anos de idade. Dois meses após,
começou a brotar uma penugem no meu rosto. O Segundo
Radiotelegrafista foi o primeiro a notar e me mandou fazer a barba.
Como
eu não tinha o aparelho gilete, os oficiais fizeram uma vaquinha
e compraram um estojo de lata com um pacote de lâminas, um pincel
e o aparelho desmontável para colocar a lâmina.
Nos dias de hoje, os jovens começam cedo a vida sexual, mas
naquele tempo, com exceção de alguns mais safos, o
processo se iniciava mais tarde. Assim, minha primeira
experiência
foi com uma lavadeira (salve elas!), em Aracajú, que morava em
uma maloca na Barra dos Coqueiros, feia como a necessidade premente.
Fumava charuto e seu cafofo era iluminado por um fifó. Se eu
fosse um cara impressionado, essa primeira experiência teria sido
um desastre.
O “Itagiba” , como já foi dito, era um navio
pequeno que calava uns doze pés. Com isso, podíamos
entrar
em portos como Pelotas, Florianópolis, Ilhéus (no porto
antigo), Aracaju e Penedo, no Rio São Francisco. Em
Ilhéus, o navio bateu com o fundo num tubo perdido por uma draga
e fez água. Uma vez atracado, tomei parte na manobra de
colocação da camisa de colisão e da feitura de um
caixão de cimento, providência de emergência
até um reparo definitivo no dique do estaleiro da Ilha do Viana.
Já ia me esquecendo. Uma das
obrigações do Praticante, era a de escriturar um livro em
que eram copiados os manifestos de carga para, uma vez descarregada, os
conferentes do porto passarem recibo. Os Praticantes chamavam esse
livro
de “Pai Nosso”. Não era fácil. Depois de sair de
quarto, às 0800 horas, tomava-se um café rápido e
começava-se a copiar os manifestos. Isso, com uma caneta com
pena
de aço que se molhava em um vidro de tinta, o tinteiro. Era um
olho na escrita e outro no tinteiro, para evitar que, com o
balanço, o vidro caísse no piso do camarote. Além
desse trabalho, quando no porto, o Praticante ajudava o Primeiro Piloto
na conferência das malas do Correio.
Era dura a vida do “Pratica”, muitos desistiam, mas
acho que, de certa forma, era um bom sistema. O Governo não
gastava dinheiro para formar um Piloto pra depois ele seguir outra
carreira. Se ele não se adaptasse à vida do mar, pedia
desembarque sem nenhum ônus para o País. Se, ao contrario,
ele quisesse continuar, após um ano de embarque, ia às
suas custas, para a Escolinha de São Bento, como era chamado o
curso mantido por professores da Escola Naval que ficava na Rua de
São Bento. Ali ele se preparava para prestar exame na Escola
Naval. No meu caso, prestei exame já na escola inaugurada nas
dependências do Lloyd Brasileiro, apelidada de Escolinha
“Walita”.
Ganhava-se pouco; o Praticante recebia 150$000
(cento e cinqüenta mil réis). Com essa quantia podiam-se
comprar dois uniformes mescla. Os leitores vão achar
engraçada a importância em mil réis, mas era assim
mesmo. Já no ano seguinte houve a mudança para cruzeiros.
O Comandante ganhava 2.000$000 (dois contos de réis). Lembro-me
disso, porque ajudava o Segundo Piloto a escriturar o Livro de
Socorros,
onde se lançavam as soldadas de toda a tripulação.
Conclui no próximo número
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Praticando
no “Itagiba” – (final) 24-07-08
Comte. Ernani A. M. Ribeiro –
CLC
ernani.ribeiro@terra.com.br
Meu embarque no “Itagiba” foi muito proveitoso. Durante um ano de
estágio, de setembro de 1940 a setembro de 1941, os Oficiais, do
Comandante ao Segundo Piloto, com toda boa vontade, procuraram me
transmitir conhecimentos, não somente da profissão que
iria seguir, mas também lições de vida. Mesmo sem
registrar seus nomes em algum caderno de anotações,
lembro-me perfeitamente de alguns deles: José Ricardo Nunes, o
Comandante; Acácio Mattos Cavalcante, Primeiro Piloto; Rubens
Ribeiro de Melo, Segundo Piloto; José Guatiguaba, Primeiro
Radiotelegrafista; Dr. Bulcão, Médico e João
Leite,
Praticante de Máquinas.
Nos últimos meses de 1940, começaram
os incidentes com nossos navios, na nossa costa e no exterior. Em 11 de
outubro, O “Siqueira Campos” foi interceptado por navio de guerra
britânico e levado para Gibraltar sob o pretexto de transportar
carga de origem alemã; em 27 de novembro, o “Buarque” foi
abordado por outro navio de guerra britânico que retirou de bordo
carga que alegavam ser contrabando de guerra; em 1º de dezembro
foi
a vez do “Itapé”, na costa brasileira, interceptado por um
cruzador auxiliar britânico que retirou de bordo 22 passageiros
de
origem alemã.
Em 1941, em 22 de março, o “Taubaté”
foi metralhado por um avião alemão no Mediterrâneo,
vitimando fatalmente o Conferente José Francisco Fraga, nossa
primeira vítima da Segunda Guerra Mundial; em 13 de junho, mais
uma vez, o “Siqueira Campos” é interceptado com tiros de
canhão por navios de guerra Britânicos, para vistoria de
carga.
Mesmo não estando o Brasil em guerra,
ficávamos preocupados e desorientados sobre o futuro dos
acontecimentos, pois até aquela altura, não havia uma
decisão sobre qual lado apoiar. Havia apenas protestos
diplomáticos. Somente em 1942, com o torpedeamento, (pelo U-507
do abominável Capitão Harro Shacht), dos navios nacionais
“Baependi”, “Araraquara”, “Aníbal Benévolo”, “Itagiba", e
“Arará”, em apenas 48 horas, no litoral nordestino, quando se
perderam 551 vidas, sob forte clamor popular, o governo brasileiro
finalmente declarou guerra aos países do Eixo.
Nessa ocasião eu já havia
desembarcado, após cumprir um ano de praticagem, tendo ido para
o
cursinho da São Bento para melhorar a carta. Fui
substituído pelo amigo já falecido, Milton Pimentel,
conhecido colega que foi por muito tempo professor da Escola de Marinha
Mercante.
O Pimentel e mais alguns amigos que deixei no
“Itagiba”, como o Acácio, o Comandante José Ricardo, o
Guatiguaba e o João Leite, foram vitimas do torpedeamento do
navio, salvos pelo “Arará” e, em seguida, novamente vitimas do
torpedeamento desse navio.
Estive com o Acácio, em sua casa, quando
chegou ao Rio. Estava muito abatido e traumatizado. Contou-me a
verdadeira odisséia que tinha vivido desde o duplo torpedeamento
até a chegada ao Rio de Janeiro, viajando de Salvador por terra.
A viagem levou vários dias, por todos os meios até de
carroça. Ainda não havia a estrada Rio-Bahia.
Embora saiba que o nosso Boletim não tem
grande penetração, não posso deixar de aproveitar
a
oportunidade para expressar meu profundo agradecimento ao então
Capitão-de-Mar-e-Guerra Ricardo Dias Vieira - sua esposa era
prima de minha tia - um dos professores da escolinha de São
Bento, catedrático da Escola Naval, pela mão de quem
ingressei na Marinha Mercante. Até na compra dos uniformes ele
me
ajudou, sendo meu fiador junto à alfaiataria do senhor Costa que
ficava na Rua Acre.
Perdoem-me os colegas por estas linhas não
estarem em ordem cronológica, às vezes até mesmo
erráticas, mas é que fui escrevendo à medida que
as
lembranças foram chegando.
Já se passaram sessenta e oito anos desde meu
primeiro embarque.
Se eu pudesse voltar aos dezessete anos,
àquela época, gostaria de voltar ao “Itagiba” e,
novamente, navegar só com uma agulha magnética, uma
barquinha e um prumo de mão.
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