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Aconteceu no "Quererá"     30-05-08

2OM Evandro Felisberto de Carvalho.
evandro.felisberto@bol.com.br

     Eu era o segundo Oficial de Máquinas do N/T “Quererá” e o Comandante um certo Luiz Augusto Ventura em seu primeiro comando. Trinta e um de dezembro de 1973, e o navio estava atracado em Itaqui (MA), descarregando fuel-oil. Saí de divisão às 18:00h.
Tomei banho, jantei e senti que o ambiente a bordo estava muito comportado. Eu queria emoções e antevia um “reveillon” acompanhado de uma jovem e bela morena maranhense.
    Calça branca com riscas verticais cor de vinho (última moda), camisa de linho branca muito chic, sapato tipo mocassin branco Samello, um toque de perfume Lancaster comprado na última viagem à Argentina e aí estava eu, sentindo-me um verdadeiro Don Juan dos Mares, tomando o destino de São Luís.
    Depois de cruzar com alguns oficiais no corredor, olhados com uma ponta de desdém por preferirem passar o ano novo a bordo, cheguei ao portaló e só então me dei conta de que chovia. Uma chuvinha fina e persistente que não dava sinais de parar. Pensei desistir, mas, como agüentar as piadinhas e o deboche da turma?
    Segui em frente, eu e Deus, deixando os “gabirus” para trás.
    No cais, o mesmo da carga seca, um navio holandês, com a sua tradicional chaminé preta com uma faixa laranja, descarregava um pó branco que, misturado à chuva que caía, produzia um respeitável lamaçal.
    Caminhando pelo cais, pisando em ovos para não sujar o Samello branquinho, cheguei a uma cabine telefônica na esperança de conseguir um táxi. O telefone estava enguiçado. Que fazer? Voltar para bordo, nem pensar...
Consultei o relógio. Faltavam duas horas e meia para a meia noite. Subitamente estanca um ônibus. “Estou salvo” – imaginei. Era o transporte dos estivadores... Sem alternativa, pedi carona ao motorista. Dentro do ônibus, uma total imundície. Fiquei em pé, próximo ao motorista quando começaram a embarcar os distintos passageiros. Todos sujos, com uma camada de pó branco molhada que, misturada ao suor, provocavam um odor insuportável no interior do ônibus.
Depois de ocupados todos os lugares, um estivador sentado no último banco, um negão com 1,90m de altura, verdadeiro “armário”, só de calção, mais parecido com um touro holandês por causa do pó branco impregnado no seu corpo, e que parecia ser o xerife da turma, gritou alto para o motorista seguir viagem. A porta da frente se fechou e o ônibus saiu sacolejando, tentando vencer os buracos da pista.
Agarrado como podia, senti-me pior do que nos caturros do “Quererá” navegando em lastro com mau tempo. Havíamos percorrido apenas uma quadra quando o ônibus encalhou, quer dizer, atolou. Imediatamente o negão gritou:
- Todos descem pra empurrar.
Todos obedeceram imediatamente, menos eu que me fiz de desentendido. Rezei pra não ser chamado. E assim fomos até São Luís, aonde chegamos às 2340h, depois de várias atoladas com o negão pagando geral em cada uma.

Tentando me refazer da atribulada viagem e dando prosseguimento aos meus planos, fui para o Sampaio Corrêa, tradicional clube da cidade. Cisquei para um lado e pro outro e nada. As cartas estavam todas marcadas. Todos pareciam se conhecer.
Resumindo a história: passei o “reveillon” sozinho, num cantinho, cabisbaixo, sorumbático e sem ter arranjado ninguém.
Para não voltar muito cedo pra bordo e ficar ouvindo as piadinhas daqueles despeitados, ainda tive de fazer hora debaixo daquela chuvinha miserável, sentindo a maior falta do meu beliche e daquela mesa farta de bordo que deixei pra trás.
Molhado e esfomeado cheguei no navio sem perder a pose. Vangloriei-me contando uma história fantasiosa e deixando todo mundo boquiaberto - ou fingindo, sei lá...
“Reveillon” em São Luís, nunca mais...
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