Rio de Janeiro,                  
O Centro dos Capitães
Associados
Cursos & Desenvolvimento
Oportunidades
Relationships

Bem-Vindos a Bordo
Diretoria
Estatuto
Agenda
Confraternização Mensal
Reuniões e Assembléias
Hino da Marinha Mercante
Legislação
Condecorações e Homenagens
Boletim Mensal
Diário de Bordo
Meteorologia
Glossário Marítimo
Arte & Cultura
Links Interessantes


A Vela do Macau      18-04-08

Comte. Carlos Nardin Lima – CLC
carlos.nardin@gmail.com

Em 1974 fui designado para comandar o petroleiro “Carmópolis” da Fronape.
Ao assumir, fiz uma inspeção de praxe a bordo e descobri, surpreso, que o navio dispunha de um escaler num picadeiro próximo a uma das duas baleeiras.
 Ainda empolgado com a recente conclusão do curso de Capitão-de-Cabotagem no CIAGA, onde aprendi a projetar velas para embarcações miúdas de todos os tipos, imaginei: “bem que eu poderia construir uma vela para esse escaler”...
Com tempo ocioso em uma travessia de Recife a Abrolhos, resolvi projetar uma vela para o tal escaler. Calculei o comprimento da retranca, da carangueja, o centro vélico da vela grande, enfim, fui até o final do projeto. Em conversa com o mestre de convés, perguntei se havia alguém a bordo que pudesse talhar e montar a vela do meu projeto. O mestre me respondeu que sim; um moço de convés conhecido por Macau, que havia sido pescador no Rio Grande do Norte, certamente daria conta do recado.
            - Então - disse eu - chama o Macau.
            O Macau, caboclinho baixinho, cabelo liso, tez queimada pelo sol, corpo de atleta, se apresentou.
            - Pronto Comandante, às suas ordens.
            - Macau, você entende de vela de embarcação?
            - Entendo sim “sinhô”.
            - Você é capaz de talhar uma vela?
            - Sou sim “sinhô”.
            - Então aqui está o projeto que acabei de fazer. Divirta-se. Só quero que você me calcule o material que vai precisar. Assim que você estiver com a relação pronta, me traga, para que eu providencie o pedido junto ao fornecedor.
            O Macau abriu timidamente o papel com o projeto da minha vela olhou, meditou  e modestamente contestou.
            - Comandante esse projeto não está certo não.
            - Como assim, Macau? Meu projeto não está certo?
            - “Tá não sinhô". "O sinhô me disculpi", mas não está certo não.
            - Mas, Macau, eu acabei de concluir o curso de Capitão-de-Cabotagem no Centro de Instrução Almirante Graça Aranha, aprendi a projetar vários tipos de vela, e você vem me dizer que  o meu projeto está errado?
            - É, mas eu estou sendo franco com o "sinhô.“Tá certo não".
            Para não me aborrecer e já aborrecido, disse a Macau:
            - Está bem Macau, então projeta a vela e a confecciona, mas antes quero que você me diga por que o meu projeto está errado...
- Sua vela tá faltando o saco, Comandante.
- Mas eu não sabia que vela tinha saco.
- Tem, Comandante, porque é no saco que se "arreune" o vento pra embarcação andar mais.
Pensei comigo mesmo: “preciso sair dessa  antes que esse marujo me venha com outra novidade”; os pescadores usam uma nomenclatura que muitas vezes foge aos padrões dos estudos de Marinha.  Propus então ao Macau  que projetasse a vela.
            - Sim "sinhô" Comandante, deixe comigo, mas eu preciso medir a embarcação.
            Informei onde se encontrava o escaler e Macau pra lá se dirigiu às pressas.
    Após medir o comprimento, a boca e o pontal da embarcação, lá  volta o Macau ao meu camarote.
    - Só vou precisar de quinze metros de lona, o resto do material “nós tem aqui a bordo”.
    Adquiri a lona na primeira escala do navio, Recife, e entreguei-a ao Macau, recomendando:
          - Macau, daqui de Recife nós vamos a Salvador. Prepara-te para talhar a vela em Madre de Deus (Terminal da Petrobras em Salvador).
            Ao chegar a Madre de Deus fui ao Superintendente do Terminal e pedi que me indicasse e  autorizasse um local para talhar a vela e fui prontamente atendido.
            O Superintendente me autorizou utilizar uma área em declive toda gramada, frontal ao berço onde estava atracado o nosso “Carmópolis”.
            Macau saiu em campo com a ajuda de mais dois marinheiros e começou a trabalhar.
            Confesso que fiquei apreensivo. Achava que o Macau ia estragar o material. Fiquei a bordo acompanhando o trabalho, de binóculo, até a hora do almoço. Almocei, tirei minha sesta e quando acordei, voltei para o binóculo. E lá estava o Macau com cabos, vara do mato, linha de pesca e inúmeras bandeirinhas. Macau enfiava uma bandeira branca na grama, uma bandeirinha azul no outro extremo, de vez em quando substituía a bandeira branca por uma vermelha, desfazia o trabalho, recomeçava de novo, enfim, cansei de assistir aquela paranóia e me recolhi  para me proteger do sol escaldante.
            Horas depois voltei ao binóculo. Para minha surpresa a vela do Macau já havia tomado forma, faltando apenas  costurar a parte que ficaria presa à retranca e à carangueja. Comecei a declinar do mau juízo que fiz do Macau.
            Lá pelas tantas, Macau me procura no camarote.
 - Comandante, sua vela está pronta.
            - A minha vela não Macau, a tua. A minha continua no projeto e já vou te adiantando – brinquei - se essa tua vela não passar no teste vais perder o teu emprego.
            Saímos de Salvador para Fortaleza e logo na chegada mandei arriar o escaler e desci a escada de portaló, junto com o Macau, para  instalar e testar a vela.
       
A tripulação parou. Era mais quem queria ver a pegadinha do Comandante caindo n'água. As recomendações jocosas se sucediam:
-    Comandante, não esqueça do seu salva-vidas
-    É melhor levar um aparelho de mergulho...
O Chefe de Máquinas, já estava a postos com a mão no apito para usa-lo quando o Comandante caísse n’água.
 Macau terminou de montar a palamenta, e, com a voz firme e  forte, decretou:
- Comandante, eu lhe passo o comando, o escaler tá pronto para velejar.
 Até então, eu desconhecia que não era o comandante do escaler e que assumiria o comando naquele instante.
            Macau já havia providenciado tudo, inclusive a ordem de um eventual abandono: “Salve-se quem puder”.
 Ordenei então, apreensivo, que o Macau largasse os cabos. Fiquei na cana do leme e deixei Macau como proeiro. Folguei bastante a escota e fui ferrando-a lentamente. Que maravilha...! O escaler navegava suavemente impulsionado pelos ventos alíseos nas límpidas águas cearenses. Enquanto navegávamos em direção à paia de Iracema, os oficiais de náutica a bordo do “Carmópolis” monitoravam nossa navegação pelo Radar e concluíram que o escaler desenvolvia uma  velocidade de 7,0 nós.
Bordejamos a praia de Iracema e regressamos ao costado do navio.
A confraternização foi geral. Todos vibraram com o sucesso da prova de mar do nosso escaler e sua maravilhosa propulsão, a vela do Macau
            Em reconhecimento ao grande feito do Macau, chamei-o à parte e disse-lhe baixinho:
 - Macau, vou te promover de Moço de Convés a Marinheiro, mas, com uma condição.
            - E qual é a condição, Comandante ? - quis saber Macau.
            - Tu vais ter que me ensinar a projetar velas para escaler...
            Macau abriu um sorriso de orelha a orelha denunciando a total inexistência de dentes na arcada superior.
            Imaginando posteriormente porque meu projeto estava errado, concluí:
“Terminei o curso de Capitão-de-Cabotagem, mas esqueci de fazer o curso de pescador”...

Home
Capitanias dos Portos DPC
DHN
USCG
IMO Cias de Navegação
Sociedades Classificadoras
Av.Rio Branco, 45 Gr.507 - Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2253-4623
TeleFax: (21) 2518-1638