Não Há Navios Sem Marinheiros



 Rio de Janeiro,    

O Centro dos Capitães
Associados
Cursos & Desenvolvimento
Oportunidades
Relationships

Bem-Vindos a Bordo
Diretoria
Estatuto
Agenda
Confraternização Mensal
Reuniões e Assembléias
Hino da Marinha Mercante
Legislação
Condecorações e Homenagens
Boletim Mensal
Diário de Bordo
Meteorologia
Glossário Marítimo
Arte & Cultura
Links Interessantes

VENTURA X AMYR KLINK (ENTREVISTA ON–LINE)

No outono de 2000, a revista “Petrobras Magazine”, publicação trimestral do Departamento de Relações Internacionais da Petrobras, editada em inglês e espanhol, publicou um artigo sobre o Capitão-de-Longo-Curso Luiz Augusto Cardoso Ventura, Comandante aposentado da Fronape, onde foi inserido o resumo de um diálogo on-line entre este e o navegador Amyr Klink.
Explorando as particularidades das atividades de cada personagem, esse diálogo se torna interessante, na medida em que esclarece ao público em geral, uma pequena faceta da atividade marítima em sua riqueza e diversidade.
Eis o diálogo na íntegra:

VENTURA – Amyr, os compêndios de Direito Marítimo ainda tratam as travessias, mesmo de grandes navios, como uma aventura marítima. Se a viagem de um enorme e sofisticado navio, ainda é considerada uma aventura, o que não dizer dos seus feitos marítimos solitários? Depois de atravessar o Atlântico Sul a remo, hibernar em geleiras e circundar o pólo Antártico em um veleiro, qual a próxima aventura que você planeja no mar?

KLINK – A próxima viagem que eu planejo é uma viagem à China por uma rota polar e após concluir uma circunavegação. É uma viagem que depende muito de logística e da capacidade de navegar simultaneamente em mares agitados e também em águas muito pouco profundas. Exatamente a situação de risco para um grande petroleiro.

KLINK – Depois da experiência com o resgate, o Sr. propôs ou participa, de algum tipo de treinamento neste sentido? Vejo com muita freqüência acidentes gravíssimos (quebra de embarcação, esmagamento de membros) sempre que uma embarcação miúda pede auxílio a uma embarcação grande.

VENTURA – As tripulações dos navios mercantes, e dos petroleiros em particular, são exaustivamente submetidas a treinamentos de incêndio, abandono e colisão, além de outras fainas como, por exemplo, a entrada e resgate em ambientes confinados.
A maioria dos Capitães de petroleiros estão treinando o seu pessoal uma vez por semana, apesar da obrigatoriedade ser mensal. A abordagem de um navio a uma embarcação pequena, dependendo das condições do mar, é uma manobra muito arriscada, como foi a do salvamento bem sucedido no Oceano Índico em que participei com a tripulação do O/O “Jurupema”, no naufrágio do M/V “Sundance”.

VENTURA - Em termos de navegação, muita coisa mudou entre a sua travessia a remo da África para o Brasil e a circunavegação ao continente gelado do sul. Nesse aspecto, que mudança você destacaria que mais veio facilitar a vida de um navegante solitário?

KLINK – Para os navegantes solitários a principal ferramenta são os pilotos automáticos. Houve uma considerável evolução nos pilotos automáticos, o uso do radar também facilita muito a nossa vida. Nós temos praticamente instrumentos semelhantes a um grande navio. Mas sem dúvida a maior mudança desde a minha travessia a remo (em 1984) foi o advento do GPS, a navegação de precisão.

KLINK – Como é a rotina de vigília em um navio grande? Embarcações pequenas, de pesca, por exemplo, que às vezes não usam luz e nem mesmo refletor radar, são avistadas e identificadas a bordo do navio?

VENTURA - Quando em viagem, o passadiço de um Navio Mercante é dia e noite guarnecido por um Oficial de Náutica e um Marinheiro de Convés servindo de vigia. A rotina de serviço dá-se com a rendição a cada 4 horas. É o chamado serviço de quarto. Nas proximidades de terra, onde a presença de barcos de pesca é mais comum e freqüente, o cuidado na vigilância é redobrado, sobretudo durante a noite, pois, mesmo com o auxílio do radar, as pequenas embarcações são sempre difíceis de serem detectadas. A falta de luzes regulamentares nessas embarcações, ou a inexistência de refletor radar, é um complicador a mais.

VENTURA - A única comparação que me ocorre fazer entre um monstruoso petroleiro com 340m de comprimento e 46m de boca, e um frágil veleiro de 20m (menor do que o calado desse navio), é que ambos flutuam. Conhecendo o mar como conheço, eu jamais me aventuraria a fazer qualquer coisa parecida ao que você tem feito, daí minha profunda admiração pela sua coragem. Qual a situação real de perigo, pela qual você já passou, que tenha feito você pensar: “se eu escapar dessa, nunca mais volto a repetir essa loucura”.

KLINK – Bem, foi no ano passado, uma situação que eu não gostei, uma quase colisão com um iceberg, e eu só percebi a presença do iceberg quando já havia passado por ele. Então foi uma situação que eu não gostaria de repetir. Mas são muito raras as situações que eu não gostaria de voltar a atravessar.

KLINK – Quantas pessoas são necessárias para fazer a manobra de entrada e saída de um grande petroleiro de um porto? Acho a operação maravilhosa e de extrema responsabilidade.

VENTURA - A entrada para operação de um grande petroleiro em um terminal é sempre uma manobra que requer extremos cuidados e envolve direta e indiretamente toda a tripulação do navio. Entenda-se como “toda a tripulação”, uma média de 24 pessoas, que é a guarnição de um VLCC (Very Large Crude Carrier). Para que você tenha uma idéia, um navio desse porte, quando em carga total, está transportando cerca de 2 milhões de barris de petróleo e chega ao terminal com um calado de 22 metros (o equivalente a um prédio de 7 andares da linha d’água até à quilha), deslocando em torno de 300.000 toneladas.

Mas a manobra de atracação/desatracação desse ou de qualquer outro navio ao terminal, não conta somente com sua tripulação. É importante e obrigatória a interferência de um Prático do Porto (dois em alguns portos da Europa, EUA e Japão), profissional que conhece a fundo as peculiaridades do local e que, valendo-se do auxílio de potentes rebocadores (pelo menos 4 no caso do VLCC), é quem, na verdade, executa essas manobras, assistidas e sob a responsabilidade do Comandante. São ainda envolvidas duas pequenas embarcações que transportam os cabos de amarração do navio para o terminal, além dos amarradores que operam no mesmo.

VENTURA – No passadiço de um grande navio, em alto mar, é muito difícil divisarmos uma embarcação pequena, principalmente durante a noite. Qual a sua visão desse risco e que providências você toma para minimizá-lo em uma travessia solitária?

KLINK – As providências são o uso do radar, que hoje em dia é acessível a qualquer embarcação, o uso de refletores-radar que é uma defesa passiva. Se alguém estiver usando radar nas proximidades, eu tenho um alerta que é acionado, mas a principal providência é a alteração na rotina de sono. Eu durmo 25 minutos a cada 45 minutos, dia e noite durante meses. Exatamente com o intuito de nunca perder o controle do horizonte.

VENTURA – Em uma de minhas viagens encontrei no meio do Atlântico Sul um velejador solitário que fazia a volta ao mundo. Era um francês. Em contacto pelo rádio VHF, ele me solicitou encarecidamente que lhe conseguisse alguma “fresh food”. Atendi ao seu pedido acondicionando alguns mantimentos frescos em um saco impermeável e atirando-o ao mar quando passava próximo ao veleiro, sem ter parado a máquina ou sequer reduzido minha velocidade. Impressionou-me a perícia com que ele resgatou o saco e a alegria da sua voz ao agradecer. Você já fez algo parecido ou pelo menos teve vontade de fazer, sobretudo depois de dias e dias se alimentando de comida desidratada?

KLINK - Uma vez eu fiz um transbordo de frutas para um barco pequeno também, um veleirinho francês. Eu fiquei impressionado com o risco da operação. Em alto-mar a aproximação e a coleta de um saco ou de uma bóia é extremamente difícil porque a ondulação é alta, e a chance da gente perder o objeto que a gente pretende resgatar ou passar é muito grande. Daí a minha profunda admiração por essa operação que o Sr. bem levou a cabo no Oceano Índico.

KLINK – Como o Sr. conseguiu controlar o nervosismo e a tensão da tripulação durante o resgate no Oceano Índico? Sei que é uma operação complicadíssima, muito mais complicada do que as pessoas possam imaginar.

VENTURA - A tensão e o nervosismo do pessoal foi um fato. Eu diria até natural. Afinal não é todo dia que um navio é envolvido em um acidente dessa magnitude. Mas a ansiedade do pessoal estava voltada para a necessidade de salvar aquelas pessoas que se encontravam em uma situação tão delicada. Por outro lado, era preciso cuidar da própria segurança. As ondas que varriam o convés e que provocaram danos materiais ao navio, poderiam também vitimar algum tripulante.
Para isso, foi preciso um perfeito entrosamento entre o Comando no passadiço e o Imediato que lidou diretamente (muito bem por sinal) com o pessoal no convés.
O clímax da ansiedade, no entanto, foi a aproximação com a baleeira (15 náufragos) e posteriormente com a balsa inflável (12 náufragos) e o resgate propriamente dito. A aproximação foi muito difícil, pois as duas embarcações, que estavam dispersas, não possuíam propulsão própria – a balsa porque não dota e a baleeira porque estava com o motor inoperante.

Alguns tripulantes, vendo a agonia dos náufragos na baleeira tentando remar para se aproximar do navio sem conseguir, devido às péssimas condições do mar, ofereceram-se para cair n’água levando o cabo de reboque a nado para a embarcação. Foi preciso convencê-los de que morreriam se tentassem. Pelo que me consta, os equipamentos de salvatagem/segurança obrigatórios em um Veleiro Oceânico são muito restritos.

Com a experiência que me ficou, gostaria de lhe fazer uma recomendação: sendo ou não obrigatório, leve sempre a bordo um “Transponder” e pelo menos um “Foguete Lança-retinidas” (e tomara que você nunca precise usá-los) .

       Veja aqui a reportagem original na Petrobras Magazine

Home
Capitanias dos Portos DPC
DHN
USCG
IMO Cias de Navegação
Sociedades Classificadoras
Av.Rio Branco, 45 Gr.507 - Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2253-4623
TeleFax: (21) 2518-1638