Não Há Navios Sem Marinheiros



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Recuperando a cidadania                                  10 – 03 - 09
Comte. Carlos Nardin Lima – CLC
carlos.nardin@gmail.com

 Por escrever alguns artigos defendendo os oficiais embarcados da Marinha Mercante, tenho recebido críticas veladas de segmentos envolvidos na nossa atividade, insinuando que o melhor seria silenciar sobre esses fatos. Pelo menos foi assim que os entendi.

Impossível silenciar.    

Não vivemos mais em regime de exceção quando escrever determinadas verdades significava atentar contra o regime vigente. Vivemos numa democracia consolidada que vem sendo aperfeiçoada dia após dia para a felicidade da sociedade brasileira.

Mas, afinal de contas, por que os meus artigos estão incomodando se visam tão somente defender a classe a que eu pertenci e que nunca teve privilégios e, muito menos, direitos respeitados?

Reconheço que no passado adquirimos antipatia de alguns segmentos marítimos e, por indução, até mesmo de parte da sociedade, quando utilizávamos a única maneira que nos era permitida para reivindicar nossos direitos – a greve.

Contudo, greve era e é um ato institucional, permitido por lei, e sujeito a análise da justiça sobre o seu reconhecimento legal ou não. Não tínhamos e ainda não temos outra maneira de reivindicar nossos direitos a não ser o diálogo que, quase sempre, não resolve e muito menos atende nossos interesses.

A Marinha Mercante modernizou-se e os acordos trabalhistas têm colocado em banho-maria os problemas latentes da nossa classe o que não significa dizer que a classe marítima esteja satisfeita com a maneira como está sendo tratada por alguns segmentos do complexo sistema marítimo brasileiro.

Entendemos que cumprir as leis e os acordos não chega a ser uma virtude e sim uma obrigação e isso a classe marítima tem feito.

Precisamos definir claramente o que significa Marinha Mercante para o Brasil: Somos militares ou civis?...No passado insinuavam que os marítimos não podiam fazer greve porque eram militares (oficiais da reserva da Marinha de Guerra); Quando reivindicávamos nossas imunidades militares, diziam que éramos civis e “empurravam o problema com a barriga”. O que hoje está acontecendo nada mais é do que o reflexo do passado.

Se hoje os marítimos reivindicam, com mais veemência, o tratamento adequado por parte das autoridades, é porque o sistema assim o exige.

Não podemos ignorar que o navio constitui a mola mestra do sistema portuário. Sem o navio, não existiria porto e sem porto, administração portuária.

Os oficiais da Marinha Mercante têm sido sistematicamente vítimas de todos os segmentos que envolvem a administração do porto, que se sentem ameaçados de cair na vulgaridade se não criarem os obstáculos que impedem ou cerceiam o livre trânsito, embora em exíguos períodos de tempo, dos tripulantes de um navio pelas instalações portuárias.

Mas o que há de tão perigoso assim que impeça o tripulante de um navio de utilizar a zona portuária, em um curto período de tempo, para chegar até o seu navio? Antigamente alegavam a prática do contrabando e atribuíam aos tripulantes dos navios os únicos responsáveis por essa prática e por isso deviam ser vigiados diuturnamente.

Mas, hoje, isso não faz mais sentido visto que o Brasil produz produtos melhores e mais baratos que muitos países por esse mundo afora. Por outro lado os tripulantes, principalmente os oficiais, estão mais intelectualizados, tem uma outra postura que não os permite mais se envolver em mesquinharias.

Ao analisar todos esses pormenores, chega-se à conclusão de que o que existe mesmo é um “ranço” inconcebível e uma aversão ao tripulante do navio, por questões que passamos a analisar:

 a) Parece prazeroso aos funcionários do porto criar dificuldades e humilhar os tripulantes dos navios;
 b) Embora sem motivos aparentes, os Oficiais são suas principais vítimas e não escapam a seu ódio incontido.

Parece que, na sua ignorância, lhes faz bem pensar “quem manda aqui sou eu”.
É assim que pensam os guardas portuários que recebem ordens superiores e extrapolam seus limites com empáfia e arrogância, desrespeitando sistematicamente os tripulantes dos navios.

Quero alertar os órgãos competentes para o mal que esse problema traz ao nosso país. O governo brasileiro investe pesadas cifras para formar um oficial de Marinha Mercante para vê-lo desistir da carreira antes, durante e depois de formado ao ouvir falar sobre a maneira como serão tratados nas zonas portuárias.

Citaremos, em meio a uma infinidade de casos, apenas um episódio que vêm corroborar o que aqui afirmamos:
Há muitos anos um Oficial de Náutica reagiu a um questionamento imbecil de um guarda portuário no porto de Recife que se dirigiu a ele perguntando quem era aquela piranha que o acompanhava Era sua esposa. Resultado: recebeu um violento soco, bateu com a cabeça no meio-fio e acabou falecendo em conseqüência de traumatismo craniano.

O marítimo precisa resgatar seus direitos há décadas cerceados. Queremos o direito de votar e ser votados (elejamos um representante da classe).

Queremos restaurado nosso direito de ir e vir.
Queremos recuperar nossa cidadania negada sistematicamente.  

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