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Portos brasileiros, fortalezas
vulneráveis.
16 – 05 - 08
Comte. Luiz Augusto C. Ventura – CLC
venturalac@yahoo.com.br
Recente matéria veiculada na Revista UNIFICAR do Sindicato dos
Oficiais da Marinha Mercante – SINDMAR, relata e esmiúça
o martírio sofrido pelos marítimos para circularem no
quintal de suas próprias casas, os portos brasileiros.
A equipe de reportagem da revista, apenas no pequeno intervalo de tempo
que levou para concluir a matéria, presenciou e descreveu casos
de arbitrariedade e desrespeito ao trabalhador marítimo.
Imagine-se então quem passou uma vida toda labutando nesse
ambiente.
Não existe um só Comandante na Marinha Mercante que
não tenha passado por constrangimentos e não cite
inúmeros casos vividos por si próprio ou por seus
tripulantes e familiares. E não se diga que a aflitiva
situação se deve à implantação do
Código ISPS. Ela é muito anterior. Vem desde a
época em que nossos portos foram transformados em verdadeiras
“fortalezas” com a implantação das Guardas
Portuárias.
A atual conjuntura apenas piorou a situação, ao
contrário do que se poderia esperar. Os adjetivos usados na
reportagem para descrever as “qualidades” dessa
organização foram extremamente felizes: Arbitrariedade.
Incoerência. Falta de Consciência. Desrespeito. Abuso de
Poder. Ignorância. Mas poderiam também ter sido
acrescentados pedantismo, arrogância e inconseqüência.
O mais chocante, no entanto, é que esses predicados não
cabem apenas aos eficientes e zelosos guardas que ficam plantados nas
cabines das “fortalezas”. Esses não passam, com raras
exceções, de meros vigias que, na falta do que fazer, se
limitam a criar dificuldades, muitas vezes visando usufruir
facilidades. Os principais personagens, os maiores culpados, são
os mandantes.
Os que expedem as ordens. Os insensíveis administradores, estes
sim, ignorantes e arbitrários, apesar do curso superior, ou et
pour cause, incapazes de darem ordens coerentes. A
implantação do Código ISPS deu a falsa
impressão de que a discriminação contra os
marítimos seria abrandada e que eles passariam a ser
considerados de outra maneira. Afinal, que outra norma recomenda
explicitamente que o marítimo deva ser diferenciado e
resguardado no desempenho de sua profissão? O ISPS Code é
bem claro no item 11 do Anexo I: “ao aprovar os planos de
proteção de navios e instalações
portuárias, os governos contratantes deverão ter
consciência do fato de que o pessoal de bordo vive e trabalha no
navio e necessita de licença em terra e de acesso às
instalações para o bem estar do marítimo,
incluindo assistência médica”. O Código ISPS
não prevê a proibição de visitantes a bordo
desde que identificados.
O bem estar do marítimo certamente inclui a companhia de seus
familiares. Tudo bem. A recomendação é para os
“governos contratantes”. Mas quem é o representante do “governo
contratante” que emite as ordens absurdas que só dificultam a
vida do marítimo? É aquele que do seu escritório
censura “as atípicas solicitações de ingresso em
embarcações de parentes da tripulação”?
(atípicas, por quê?) Ou é aquele que emite ordem
coibindo “em especial a subida ou descida ilegal de mercadorias,
drogas, passageiros e garotas de programas”? Tenham dó... Esse
tipo de gente não tem a mínima noção do que
seja a disciplina e a hierarquia a bordo de um navio. Não tem a
mínima noção da formação de um
Comandante, dos Oficiais, nem mesmo dos tripulantes, homens e mulheres.
Para esse tipo de administrador e “autoridade”, a bordo só
existem marginais, quiçá bandidos e terroristas.
Certamente partem dessa premissa. Mas o mais estranho é que
não se conhecem quaisquer ocorrências mais graves,
provindas de tripulantes ou acompanhantes, que tenham posto em risco as
instalações dos portos ou terminais ou a eles tenham
causado prejuízo. Apontem pelo menos uma, em qualquer
ocasião, se isto não for verdade. Ao contrário,
por mais paradoxal que pareça, enquanto as autoridades
portuárias criam todo tipo de dificuldade aos tripulantes e seus
familiares, a marginalidade real está assaltando os navios por
terra e por mar, manietando e às vezes matando seus tripulantes.
Nas instalações portuárias nem se fala. Invadem,
arrombam, roubam e até subtraem contêineres com carreta e
tudo saindo sem cerimônia pelo portão da frente. Mas o
perigo está no acesso e movimentação dos
tripulantes. Isto é simplesmente ridículo e revoltante.
Acostumados a lidar com autoridades portuárias do primeiro mundo,
os marítimos podem muito bem fazer as devidas
comparações e se indignar. Nem nos EEUU, vítima
direta dos ataques de 11 de setembro e responsáveis pela
implantação do Código ISPS ao redor do mundo,
é presenciada tamanha exorbitância.
As autoridades portuárias da América, da Europa e do
Japão são duras e inflexíveis para os que forem
apanhados em deslizes, mas jamais arbitrários ou
estúpidos com os marítimos em geral. É
fácil antever que qualquer tipo de denúncia como a da
Revista UNIFICAR, ou por mais revoltada que seja, como esta, não
repercute e não sensibiliza nenhuma autoridade, simplesmente cai
no vazio. Haja vista as declarações de pessoas envolvidas
no meio marítimo entrevistadas na reportagem. Todas, sem
exceção, tergiversam e praticamente dão
razão às normas restritivas, mesmo contra os
marítimos.
Só quem vivenciou a rotina do mar pode entender. Só quem
já chegou em casa e viu os filhos correrem assustados sem saber
quem era aquele cara, é que pode entender. Só quem deixou
a mulher grávida e só voltou praticamente para ver o
filho nascer, é que pode entender.
ó quem teve que partir deixando a mulher ou um filho doente,
é que pode entender. Só quem nunca teve o prazer de ver
os filhos darem os primeiros passos, pronunciarem as primeiras
palavras, é que pode entender.
Só quem, depois de uma travessia oceânica, chega em casa
feliz para batizar o filho com meses de idade e descobre que ele
já morreu e foi enterrado, fato estoicamente guardado por sua
mulher, é que pode entender.
Só quem, depois de meses ausente, ao tentar levar a mulher e os
filhos para bordo, não consegue, barrado por um idiota
refestelado numa cabine do porto, por não estar de posse da sua
Certidão de Casamento e de Nascimento dos filhos, é que
pode entender. Só quem, depois de meses de viagem, chega ao seu
País e, depois de assistir a tanta cretinice, é atacado
por piratas que invadem o seu navio pelo mar e por resistir em abrir o
cofre e se recusar a abrir os camarotes com a chave mestra é
violentamente agredido, só não morrendo por pura sorte,
é que pode entender.
Nada mudará o procedimento desse pessoal que só quer
mostrar serviço e autoridade em cima dos mais fracos sem saber
pelo menos o quê e porquê está fazendo. Por que
não tentam o mesmo com os militares que circulam pela zona
portuária quando seus navios estão atracados? Por que
não desbaratam as quadrilhas que agem nos portos com perfeito
conhecimento da localização das cargas que lhes interessa
e seus respectivos contêineres? Por que não coíbem
a invasão dos navios pelo mar? Porque é mais
fácil mostrar serviço em cima do pobre,
injustiçado e indefeso marítimo.
É preciso uma mudança de mentalidade, dirão os
incorrigíveis otimistas. Mas esse é um lugar comum
empregado apenas como retórica. Ceticismo é a palavra
certa. Como acreditar em mudança de mentalidade? É de
estarrecer que, até mesmo pessoas esclarecidas, afeitas
às lides do mar, ao mudar de lado, adotem a mesma
argumentação, evasiva, tacanha, preconceituosa e
inconseqüente. Por que se exigir cadastramento de familiares de
tripulantes? Por que um tripulante em regime de união
estável é mais discriminado ainda, necessitando
apresentar documento especial emitido em cartório? Isso é
um absurdo. As mudanças de programação dos navios
são dinâmicas, mudam constantemente, e os/as oficiais de
bordo têm coisas muito mais importantes a fazer do que ficar
alterando listinhas a toda hora. E, não é demais repetir,
qual é o perigo que o familiar de um tripulante traz ao complexo
portuário? Não basta que apenas o tripulante seja
identificado?
Por que impedir que um Comandante entre no cais levando um
eletro-doméstico ou um complemento de rancho para bordo comprado
em terra, mesmo apresentando a competente nota fiscal? Nossas
autoridades responsáveis sabem disso? Podem explicar essa
aberração? É preciso que nossas autoridades
portuárias conheçam a vida de bordo. Saibam que lá
existem pessoas que conhecem a importância do seu trabalho em
prol da sociedade; que lá existe seriedade, ordem, disciplina e
abnegação, muito mais do que em muitas
organizações que mais atrapalham do que ajudam.
Nenhum tripulante leva nada e ninguém para bordo sem o
conhecimento do Comandante ou seus prepostos, o Imediato e o Oficial de
Serviço e estes respondem por ele. O marítimo tem que
ser diferenciado como reza o Código ISPS. Aquele é o seu
ambiente de trabalho. Por ali ele é obrigado a circular
já que seu navio está atracado. É
comparável a um funcionário portuário. É um
usuário das instalações portuárias e assim
deve ser tratado. Para sua identificação basta sua
identidade e a constatação de que seu nome consta na
lista de tripulantes deixada no portão principal.
Esse tripulante é responsável por qualquer pessoa que o
acompanhe para bordo. No navio, vale repetir, existe ordem e disciplina
e esse tripulante está submetido a ela. Ninguém ingressa
a bordo com um acompanhante sem permissão antecipada do comando
do navio. Se mesmo assim houver qualquer suspeita do “cioso vigilante
do porto”, basta um simples telefonema para bordo para confirmar a
versão do tripulante. Ou uma simples e rápida
identificação do ou da acompanhante com a
concessão de um crachá para ser devolvido na
saída, ou coisa parecida. Nada mais que isso.
O Código ISPS instituiu o PFSO, Oficial encarregado pela
proteção portuária e o SSO, Oficial de
Segurança do Navio. Uma simples comunicação entre
os dois dirimiria qualquer dúvida. Mas não há
interesse do lado portuário. Além do mais o FPSO, ao
contrário do SSO, dificilmente é encontrado e quase nunca
vai a bordo, sua obrigação. Da mesma maneira o
transporte de tripulantes e acompanhantes para bordo pode ser
facilmente controlado.
Se uma condução está indo para bordo com
vários tripulantes, não há necessidade de
identificar um a um, o motorista e o credenciamento da
condução. Basta identificar o tripulante mais antigo,
saber se ele se responsabiliza pelos demais e pela
condução, assinar um formulário adequado, e
pronto. Vários Comandantes, já tentaram fazer isso, se
identificando e se responsabilizando pelos seus tripulantes e receberam
um debochado sorriso do “eficiente guarda portuário” que
continuou executando suas ordens cretinas.
Vários Comandantes já se deslocaram de seus navios ao
portão principal para testemunhar o parentesco ou permitir o
simples ingresso de seu/sua tripulante acompanhado e receberam o
indefectível sorriso de deboche seguido da inexplicável
negativa. É uma total falta de respeito e
consideração. Um verdadeiro non sense. Mas os culpados
disso tudo são os marítimos.
Quem pode entender esses tresloucados que se submetem a uma vida
tão dura e ainda tem de aturar esse tipo de tratamento
preconceituoso e sem sentido?
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