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A sabedoria popular especula que as
guerras, com suas trágicas, incompreensíveis e
catastróficas conseqüências, acabam sendo
benéficas à humanidade no âmbito das
invenções e seus aperfeiçoamentos pois, com o
passar do tempo, são incorporadas ao uso da sociedade como um
todo e utilizadas em seu proveito. As criações seriam
mais férteis durante as guerras, ou na iminência delas,
dentre outros motivos, porque nos períodos de beligerância
os governos investem muito mais em cérebros humanos
incentivando-os a criar e ousar.
Para nos restringirmos apenas aos benefícios
auferidos no campo da segurança da navegação, de
imediato lembramos do radar que teve seus princípios descobertos
em 1904 mas que somente durante a 2a guerra mundial, por volta de 1936,
foi desengavetado, desenvolvido e aperfeiçoado por militares
para aplicação imediata na guerra, sendo inicialmente
instalado na costa da Inglaterra para detecção de
aeronaves inimigas. Seu uso foi a seguir difundido em
navios. Navegar sem radar hoje seria impensável.
Não são porém somente as
guerras convencionais as incentivadoras de inventos. A guerra fria,
conflito político-ideológico entre os EE.UU e a
União Soviética (capitalismo e comunismo) que perdurou
por quase 50 anos após o término da Segunda Guerra
Mundial, em que esses dois países se defrontaram em uma guerra
não declarada oficialmente, foi paradoxalmente o período
de maior desenvolvimento científico e tecnológico jamais
visto em toda a história da humanidade.
É nessa época, entre as décadas
de 70 e 80, que surge o Sistema de Posicionamento Global (GPS, sigla em
inglês), invenção militar criada para orientar
mísseis e guiar tropas em lugares de difícil
locomoção e que acabou sendo liberada ao uso comercial.
Em termos de segurança da navegação foi a
descoberta da segunda bússola.
Quando parecia que os navegadores teriam que se
contentar com a navegação por satélite como talvez
sua última conquista, e considerá-la por longos anos,
já que nenhuma guerra se delineava no horizonte
longínquo, haja vista a queda do muro de Berlim, eis que surge
uma nova modalidade de conflito. O terrorismo sem fronteiras que
desponta atacando covardemente o mais rico e poderoso país do
mundo em 11 de setembro de 2001.
Não transcorreram dois anos após essa catástrofe e
a IMO, sob forte influência americana, implanta ao redor do mundo
o ISPS-Code, visando resguardar as instalações
portuárias e os navios contra atentados de qualquer
espécie e cria mais um sistema que passa a proteger não
só as embarcações entre si, como também
permitir, de bases terrestres, um maior e mais preciso controle dos
navios nas proximidades dos portos: o Sistema de
Identificação Automática (AIS, sigla em
inglês).
Só quem navegou em áreas de denso tráfego e
precisou inúmeras vezes mudar de rumo para evitar
colisão, antes de tentar saber, muitas vezes em vão, as
intenções do outro navio, sabe o quanto esse aparelhinho
ajuda hoje o navegante. O AIS, por funcionar em banda VHF, tem o seu
alcance limitado em torno de 24 milhas mas já é de
uma ajuda inestimável na prevenção de acidentes no
mar. É quase um outro radar.
Será que ficamos por aí? Não.
Está sendo implantado agora, pela IMO, um novo sistema de
detecção de embarcações no mar, desta vez
de longo alcance. Trata-se do “Long Range Identification and Tracking
(LRIT) – Sistema de Identificação e Acompanhamento de
Navios a Longa Distância.
Esse sistema, algo semelhante ao AIS, mas sem
interface entre eles, entrou em vigor a partir de 31 de dezembro de
2008 e dará direito aos governos contratantes a receber
informações sobre os navios navegando a uma
distância não superior a 1000 milhas marítimas ao
largo de sua costa. Sua regulamentação está
definida no capítulo V da SOLAS sobre a Segurança
da Navegação como requisito obrigatório para os
navios em viagens internacionais.
Evidentemente criado por interesses militares,
não se deve deixar de reconhecer que a
implantação do LRIT e seus respectivos Centros de Dados,
ao permitir a troca de informações entre os sistemas de
controle do tráfego marítimo dos países
signatários, vão proporcionar aos navegantes a
sensação de não estarem sozinhos no mundo em uma
situação de perigo já que terão ao seu
alcance um enorme facilitador nas atividades de busca e salvamento
(SAR).
O que virá a seguir?
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