Não Há Navios Sem Marinheiros



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“Guerra e Paz”
Comte. Luiz Augusto C. Ventura – CLC  


 
    A sabedoria popular especula que as guerras, com suas trágicas, incompreensíveis e catastróficas conseqüências, acabam sendo benéficas à humanidade no âmbito das invenções e seus aperfeiçoamentos pois, com o passar do tempo, são incorporadas ao uso da sociedade como um todo e utilizadas em seu proveito. As criações seriam mais férteis durante as guerras, ou na iminência delas, dentre outros motivos, porque nos períodos de beligerância os governos investem muito mais em cérebros humanos incentivando-os a criar e ousar.
    Para nos restringirmos apenas aos benefícios auferidos no campo da segurança da navegação, de imediato lembramos do radar que teve seus princípios descobertos em 1904 mas que somente durante a 2a guerra mundial, por volta de 1936, foi desengavetado, desenvolvido e aperfeiçoado por militares para aplicação imediata na guerra, sendo inicialmente instalado na costa da Inglaterra para detecção de aeronaves inimigas. Seu uso foi a seguir difundido  em navios.  Navegar sem radar hoje seria impensável.
    Não são porém somente as guerras convencionais as incentivadoras de inventos. A guerra fria, conflito político-ideológico entre os EE.UU e a União Soviética (capitalismo e comunismo) que perdurou por quase 50 anos após o término da Segunda Guerra Mundial, em que esses dois países se defrontaram em uma guerra não declarada oficialmente, foi paradoxalmente o período de maior desenvolvimento científico e tecnológico jamais visto em toda a história da humanidade.    
    É nessa época, entre as décadas de 70 e 80, que surge o Sistema de Posicionamento Global (GPS, sigla em inglês), invenção militar criada para orientar mísseis e guiar tropas em lugares de difícil locomoção e que acabou sendo liberada ao uso comercial. Em termos de segurança da navegação foi a descoberta da segunda bússola.
    Quando parecia que os navegadores teriam que se contentar com a navegação por satélite como talvez sua última conquista, e considerá-la por longos anos, já que nenhuma guerra se delineava no horizonte longínquo, haja vista a queda do muro de Berlim, eis que surge uma nova modalidade de conflito. O terrorismo sem fronteiras que desponta atacando covardemente o mais rico e poderoso país do mundo em 11 de setembro de 2001.
Não transcorreram dois anos após essa catástrofe e a IMO, sob forte influência americana, implanta ao redor do mundo o ISPS-Code, visando resguardar as instalações portuárias e os navios contra atentados de qualquer espécie e cria mais um sistema que passa a proteger não só as embarcações entre si, como também permitir, de bases terrestres, um maior e mais preciso controle dos navios nas proximidades dos portos: o Sistema de Identificação Automática (AIS, sigla em inglês).
 Só quem navegou em áreas de denso tráfego e precisou inúmeras vezes mudar de rumo para evitar colisão, antes de tentar saber, muitas vezes em vão, as intenções do outro navio, sabe o quanto esse aparelhinho ajuda hoje o navegante. O AIS, por funcionar em banda VHF, tem o seu alcance limitado em torno de 24  milhas mas já é de uma ajuda inestimável na prevenção de acidentes no mar. É quase um outro radar.
    Será que ficamos por aí? Não. Está sendo implantado agora, pela IMO, um novo sistema de detecção de embarcações no mar, desta vez de longo alcance. Trata-se do “Long Range Identification and Tracking (LRIT) – Sistema de Identificação e Acompanhamento de Navios a Longa Distância.
    Esse sistema, algo semelhante ao AIS, mas sem interface entre eles, entrou em vigor a partir de 31 de dezembro de 2008 e dará direito aos governos contratantes a receber informações sobre os navios navegando a uma distância não superior a 1000 milhas marítimas ao largo de sua costa. Sua regulamentação está definida no capítulo V da  SOLAS sobre a Segurança da Navegação como requisito obrigatório para os navios em viagens internacionais.
    Evidentemente criado por interesses militares, não se deve deixar de reconhecer  que a implantação do LRIT e seus respectivos Centros de Dados, ao permitir a troca de informações entre os sistemas de controle do tráfego marítimo dos países signatários, vão proporcionar aos navegantes a sensação de não estarem sozinhos no mundo em uma situação de perigo já que terão ao seu alcance um enorme facilitador nas atividades de busca e salvamento (SAR).
    O que virá a seguir?

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