|
À luz do direito, o navio é um
simples objeto. Algumas particularidades, no entanto, transformam esse
objeto em um agente singular sujeito a leis, regulamentos, tratados e
convenções nacionais e internacionais. Sua posse, em maior
ou menor escala, influencia fortemente a economia de uma
nação. O pavilhão em sua popa, leva aos mais
recônditos recantos do globo o reconhecimento imediato
de seu país de origem. Em seu bojo são transportadas
riquezas que representam mais de 80% das mercadorias movimentadas no
comércio mundial.
Originária da palavra latina navigium, que
designava toda e qualquer construção capaz de navegar em
quaisquer águas, o navio, de fato, reúne algumas
características que o tornam um objeto sui generis. Bem
móvel por sua própria natureza, o navio também
é considerado, em certos casos, como um bem imóvel dado
seu grande valor comercial. É, por exemplo, um bem móvel
que pode ser hipotecado, característica exclusiva dos bens
imóveis. A prova de sua propriedade só pode ser feita
mediante um documento escrito, devidamente registrado no Tribunal
Marítimo (sua identidade), sendo vedada sua transferência
nos moldes de um simples e comum bem imóvel.
Curiosa e inexplicavelmente para o leigo, essa massa
imensa de ferro e aço, com milhares de toneladas de peso,
consegue flutuar e se deslocar sobre um meio adverso, a água,
“estrada” natural que não necessita de sinalização
nem manutenção e que em nada se parece com uma rodovia ou
ferrovia.
E como flutuam, se deslocam e se orientam essas
fortalezas flutuantes?
O princípio da flutuabilidade, descoberto por
Arquimedes em uma prosaica banheira, 250 anos antes de Cristo,
imutável através dos séculos, foi instintivamente
utilizado nas primeiras embarcações construídas do
junco à madeira: “um corpo imerso na água tenderá a
flutuar equilibrado por uma força igual ao peso do
líquido deslocado”. A idéia de que somente materiais menos
densos do que a água, a madeira, por exemplo, poderiam flutuar,
limitou por muito tempo a construção naval.
Somente em princípios do século XIX, vencendo a
incredulidade dos apologistas da madeira na construção dos
cascos, ficou evidente que uma embarcação adequadamente
moldada em ferro poderia perfeitamente flutuar. Daí em diante,
com o surgimento da máquina a vapor e uma evolução
tecnológica contínua, chegou-se à
construção de colossais transatlânticos capazes de
transportar milhares de passageiros, de impressionantes cargueiros com
capacidade para deslocar doze mil containeres de 20 pés e a
gigantescos petroleiros, um capítulo à parte no
transporte marítimo de granéis líquidos.
Vejamos uma pequena ilustração com o ULCC (Ultra
Large Cargo Carrier) “Jahre Vicking”, de bandeira norueguesa, o maior
navio petroleiro do mundo: sua capacidade de carga, 564.000t de
petróleo, daria para atender ao consumo do Brasil por dois dias e
meio; se pudesse ser colocado em pé, seus incríveis 458m
de comprimento, ultrapassariam o Pão de Açúcar em
62m; sua boca de 69m, é uma vez e meia a largura da Av.
Presidente Vargas no Rio de Janeiro com suas 15 pistas de rolamento e
três canteiros divisórios; seus 24,6m de calado,
são equivalentes a um prédio de oito andares abaixo da
linha d´água.
É a velha banheira de Arquimedes milhares de vezes
ampliada.
Na década de 80, no auge da guerra Iran x
Iraque, quando navegar pelo Golfo Pérsico era um grande perigo,
esses países freqüentemente anunciavam o bombardeio de “um
alvo inimigo de grandes proporções”, eufemismo para
designar o ataque a um grande petroleiro. Com as dimensões do
exemplo acima, vê-se que não era tão difícil
acertar um míssil em tal alvo, além de tudo, desarmado.
A tecnologia suplantou também as dificuldades
iniciais da navegação que não permitiam que as
antigas embarcações deixassem de avistar terra. As
travessias de hoje em dia, jamais imaginadas por Cabral ou Colombo,
podem levar qualquer espaço de tempo sem a necessidade de se
divisar referências de terra, além dos pontos de
saída e chegada. Com governo totalmente automático,
orientação por satélite e comunicação
instantânea com terra a qualquer momento, a rotina de bordo
passou por uma verdadeira revolução. Um pequeno exemplo
disso é que, na imensidão do mar, um minúsculo
aparelhinho – AIS – sigla em inglês para Sistema
Automático de Identificação, que nada tem a ver
com um radar, automaticamente identifica outro navio nas
imediações, dando a conhecer instantaneamente seu nome,
nacionalidade, destino, procedência, velocidade, rumo e
até o número de tripulantes a bordo, sem que para isso
seja preciso nenhum cálculo e nenhuma troca de
comunicação por rádio.
Paradoxalmente, os antigos métodos de navegação
nunca foram abandonados e provavelmente jamais o serão.
Assim é que, ainda hoje, são indispensáveis: a
velha agulha magnética (bússola), que não depende
de energia; o sempre valioso cronômetro (a hora certa é
fundamental na determinação da longitude) e a importante
ferramenta chamada sextante, evolução do astrolábio
de Hiparco - astrônomo grego do século II a.C - que
permite a navegação pelos astros e continuará
sempre sendo utilizada para conferir a navegação por
satélites artificiais. Estes podem falhar, as estrelas jamais.
Motivo de orgulho para seus proprietários,
que no meio marítimo são chamados armadores, os navios
mercantes provocam às vezes exageradas expectativas que nem
sempre se concretizam. Ainda não se construiu o navio
inafundável - a saga do Titanic retrata isso muito bem - e isto
jamais virá a acontecer, a não ser que o homem consiga
controlar as forças da natureza o que é, como sabemos,
atribuição de um ser supremo. A exemplo do navio
inafundável, a meta da construção de um navio que
só dê lucro, ou de outro que nunca cause um desastre
ecológico, está descartada. Esta é uma sina com a
qual teremos de conviver enquanto for construído, conduzido e
operado por seres humanos.
Outra curiosa particularidade do navio é o
registro da sua existência. Desde sua concepção na
prancheta dos arquitetos e engenheiros navais, passando pela sua
construção no estaleiro, até sua efetiva baixa,
tudo é registrado e poderá ser reproduzido através
de documentos.
O navio tem um nome oficialmente registrado,
formalizado através de uma cerimônia de batismo. Tem uma
nacionalidade reconhecida pelo pavilhão que hasteia, é
parte integrante dessa nação e está sujeito a suas
leis. Finalmente, tem um domicílio, estampado em sua popa, logo
abaixo do seu nome, que designa o seu porto de inscrição.
Como se isto não fosse suficiente, sua
existência pode ser fielmente reproduzida, vinte e quatro horas
por dia, com a leitura dos Diários de Bordo
(Navegação e Máquinas) que retratam fielmente a sua
vida e são juridicamente reconhecidos.
Desconhecido pela maioria da
população, o transporte comercial marítimo, feito
através de navios mercantes é uma atividade pujante que
rende milhões de dólares em divisas para o país. Os
navios que cruzam os oceanos em todas as direções
são importantes instrumentos transportadores de riquezas. Ao
desaparecerem de nossas vistas no horizonte, não imaginamos que
seus tripulantes, que ali têm seu mini-universo, estão
iniciando sua rotina diária de uma labuta incessante. Preparados
para enfrentar os percalços e imprevistos da aventura
marítima, seguem abatidos com a partida, mas já vibrando
com a idéia de que, em compensação, está
começando também a contagem regressiva para o retorno que
os trará de volta ao seio da família.
Obs.: Artigo publicado na Revista do Clube Naval no. 334.
09-03-07
|