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Não, não,
era um Mestre de Convés, muito menos nosso Mestre CLC Ruy da
Cunha e Menezes que já nos deixou. Era um Mestre Eletricista
que servia no campo petrolífero de Candeias, no Estado da
Bahia. Ele tinha fama de resolver qualquer problema que surgisse no
campo, inclusive fora de sua área. “O homem é o
cão”, diziam os peões que trabalhavam com ele.
Na verdade, Mestre Ruy
era um paraense bem humorado, possuidor de uma larga experiência
adquirida ao longo dos programas pioneiros da Petrobras. Serviu em
Nova Olinda, em Urucu e outros poços de
perfuração de petróleo na selva Amazônica.
Segundo ele, “comeu o pão que o diabo amassou”, mas adquiriu a
experiência que o credenciou a ser chamado de "o homem
solução" da Petrobras nos campos petrolíferos.
Volta e meia, uma façanha a mais aguçava a criatividade
do Mestre que, após resolvê-la, já estava pronto
para o desafio seguinte.
Um dia, dois engenheiros
recém formados estavam com um sério problema para
solucionar. A Petrobras precisava passar um cabo de força por
dentro de um tubo de ferro de 100 metros de comprimento, mas
não queria que o tubo fosse desmontado para não causar
danos aos equipamentos adjacentes. Ordenou aos dois jovens engenheiros
que executassem a tarefa e dessem a prontificação do
serviço no prazo de dois dias.
Os engenheiros, já
com uma estratégia em vista, foram para a área de
operação munidos de compressor de ar, linha de pesca,
cabos de aço de várias bitolas, um caminhão
guincho e cinco peões para auxiliá-los.
Calcularam o peso e o
tamanho do cabo de força que iriam introduzir no tubo e
concluíram que tinham que passar primeiramente cabos de
aço mais leves que pudessem ser puxados pelo caminhão
guincho.
Mas, como passar o
primeiro cabo mais leve?...Eis a questão.
Depois de várias
tentativas frustradas, tiveram uma idéia. Passar uma linha de
pesca fina, depois uma mais grossa, depois um cabo de aço fino,
em seguida um mais grosso e aí então engatar no cabo de
força e puxar com o caminhão guincho. Resolvido?...Ainda
não.
Como passar a primeira
linha de pesca?...Persistia a questão.
Um peão, vendo a
dificuldade dos engenheiros, não se conteve:
- Doutor, tem um mestre
lá em Candeias que resolve esse problema.
Os engenheiros, formados
pela USP e orgulhosos da sua posição, desdenharam da
sugestão e deram prosseguimento às suas tentativas.
Amarraram uma esfera de isopor numa
linha de pesca, colocaram dentro do tubo e ligaram o compressor.
Pronto! Lá se foi à primeira linha de pesca. Mas surgiu
um novo obstáculo: no meio do tubo havia uma curva de
transposição que impedia que a bola de isopor passasse,
porque a linha de pesca, a essa altura, já pesava bastante.
O peão, já
meio saturado, novamente se pronunciou:
- Olha doutor, o Mestre
Ruy resolve esse problema.
Foi novamente ignorado.
As primeiras vinte e
quatro horas se passaram e nada dos engenheiros resolverem o quebra
cabeça. Não podiam mais esperar sob pena de terem que
dizer ao chefe do departamento que não haviam conseguido
executar a tarefa, o que lhes causaria enorme constrangimento.
Sem alternativa,
voltaram-se para o peão:
- Chamem esse tal de
Mestre Ruy que nós queremos ver se ele é bom mesmo. Se
ele não resolver o problema, vocês e ele serão
demitidos, brincaram os engenheiros.
Telefonaram para o Mestre
Ruy e lá vem ele numa caminhonete da Petrobras – Campo de
Candeias.
Ao chegar, apresentou-se
incisivo:
- Pronto doutor,
às suas ordens.
- Falam por aqui que o
senhor é muito bom. Que resolve qualquer tipo de problema,
é verdade?
- Depende doutor. Qual
é o problema?...
- Nós precisamos
passar esse cabo de força por dentro desse tubo de cem metros e
até agora não conseguimos.
- Ah, isso é
fácil – respondeu Mestre Ruy;
- Fácil,
Mestre?...Nós estamos aqui há mais de vinte e quatro
horas e ainda não resolvemos o problema e o senhor vem dizer
que é fácil? Pois bem, o senhor então pode
executar o trabalho, mas se não obtiver êxito será
demitido juntamente com os seus peões – repetiram a
brincadeira, desconfiados e incrédulos.
- Tudo bem Doutor.
Mestre Ruy virou-se para
os peões, que já o conheciam, e ordenou:
-Vamos lá
rapaziada, "operação réptil"...
Os cinco peões
sumiram mato adentro e não tardaram em trazer uma robusta
lagartixa. Mestre Ruy amarrou uma linha de pesca fina na cintura da
lagartixa e introduziu-a no tubo. Enquanto a lagartixa corria
apavorada tubo-a-dentro, Mestre Ruy comandava a operação:
- Dá linha
peão, dá linha peão.
Até que a
lagartixa parou. Lógico, a lagartixa não sabia para onde
estava indo. Talvez, fazendo uma viagem sem volta.
Os engenheiros sorriram e
provocaram:
- E agora, Mestre?
Mestre Ruy deu a segunda
voz de comando
- Operação
marreta!
E os peões
passaram a bater com as marretas na entrada do tubo. A lagartixa,
espantada, só tinha uma opção: seguir em frente.
Quando passou pela curva do tubo, vislumbrou uma luz no fim do
túnel. Só podia ser a saída. As marretadas que os
peões aplicavam no tubo levavam-na à loucura; ela
pensava que o mundo ia acabar; sua vida estava limitada a poucos
minutos, segundos talvez. A luz no fim do túnel era sua
única salvação. Pra traz não podia correr
porque as marretadas provocavam um barulho ensurdecedor. E lá
ia ela em busca da luz. A lagartixa teve a certeza que aquela era a
saída; a linha já pesava na sua cintura, mas sentia que
ainda tinha energia para chegar até lá.
Um esforço mais
e... pronto! Saiu do outro lado do tubo com a língua de fora de
tão cansada que estava. Mestre Ruy deu uma última
recomendação:
- Cuidado peão,
não machuca a minha secretária.
E o peão soltou a
lagartixa que saiu correndo para o mato após prestar um
inestimável serviço à Petrobras.
Os engenheiros, ainda
atônitos, não sabiam como agradecer, mas reconheceram que
deviam cumprimentar o Mestre Ruy.
Diante do sorriso maroto
dos peões ficaram com a ligeira desconfiança de que
seriam vítimas de uma tremenda gozação...
Carlos.nardin@gmail.com |