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O Mestre Ruy
Comte. Carlos NardinLima – CLC

 Não, não, era um Mestre de Convés, muito menos nosso Mestre CLC Ruy da Cunha e Menezes que já nos deixou. Era um Mestre Eletricista que servia no campo petrolífero de Candeias, no Estado da Bahia. Ele tinha fama de resolver qualquer problema que surgisse no campo, inclusive fora de sua área. “O homem é o cão”, diziam os peões que trabalhavam com ele.

Na verdade, Mestre Ruy era um paraense bem humorado, possuidor de uma larga experiência adquirida ao longo dos programas pioneiros da Petrobras. Serviu em Nova Olinda, em Urucu e outros poços de perfuração de petróleo na selva Amazônica. Segundo ele, “comeu o pão que o diabo amassou”, mas adquiriu a experiência que o credenciou a ser chamado de "o homem solução" da Petrobras nos campos petrolíferos. Volta e meia, uma façanha a mais aguçava a criatividade do Mestre que, após resolvê-la, já estava pronto para o desafio seguinte.

Um dia, dois engenheiros recém formados estavam com um sério problema para solucionar. A Petrobras precisava passar um cabo de força por dentro de um tubo de ferro de 100 metros de comprimento, mas não queria que o tubo fosse desmontado para não causar danos aos equipamentos adjacentes. Ordenou aos dois jovens engenheiros que executassem a tarefa e dessem a prontificação do serviço no prazo de dois dias.

Os engenheiros, já com uma estratégia em vista, foram para a área de operação munidos de compressor de ar, linha de pesca, cabos de aço de várias bitolas, um caminhão guincho e cinco peões para auxiliá-los.

Calcularam o peso e o tamanho do cabo de força que iriam introduzir no tubo e concluíram que tinham que passar primeiramente cabos de aço mais leves que pudessem ser puxados pelo caminhão guincho.

Mas, como passar o primeiro cabo mais leve?...Eis a questão.

Depois de várias tentativas frustradas, tiveram uma idéia. Passar uma linha de pesca fina, depois uma mais grossa, depois um cabo de aço fino, em seguida um mais grosso e aí então engatar no cabo de força e puxar com o caminhão guincho. Resolvido?...Ainda não.

Como passar a primeira linha de pesca?...Persistia a questão.

Um peão, vendo a dificuldade dos engenheiros, não se conteve:

- Doutor, tem um mestre lá em Candeias que resolve esse problema.

Os engenheiros, formados pela USP e orgulhosos da sua posição, desdenharam da sugestão e deram prosseguimento às suas tentativas. Amarraram uma esfera de  isopor  numa linha de pesca, colocaram dentro do tubo e ligaram o compressor. Pronto! Lá se foi à primeira linha de pesca. Mas surgiu um novo obstáculo: no meio do tubo havia uma curva de transposição que impedia que a bola de isopor passasse, porque a linha de pesca, a essa altura, já pesava bastante.

O peão, já meio saturado, novamente se pronunciou:

- Olha doutor, o Mestre Ruy resolve esse problema.

Foi novamente ignorado.

As primeiras vinte e quatro horas se passaram e nada dos engenheiros resolverem o quebra cabeça. Não podiam mais esperar sob pena de terem que dizer ao chefe do departamento que não haviam conseguido executar a tarefa, o que lhes causaria enorme constrangimento.

Sem alternativa, voltaram-se para o peão:

- Chamem esse tal de Mestre Ruy que nós queremos ver se ele é bom mesmo. Se ele não resolver o problema, vocês e ele serão demitidos, brincaram os engenheiros.

Telefonaram para o Mestre Ruy e lá vem ele numa caminhonete da Petrobras – Campo de Candeias.

Ao chegar, apresentou-se incisivo:

- Pronto doutor, às suas ordens.

- Falam por aqui que o senhor é muito bom. Que resolve qualquer tipo de problema, é verdade?

- Depende doutor. Qual é o problema?...

- Nós precisamos passar esse cabo de força por dentro desse tubo de cem metros e até agora não conseguimos.

- Ah, isso é fácil – respondeu Mestre Ruy;

- Fácil, Mestre?...Nós estamos aqui há mais de vinte e quatro horas e ainda não resolvemos o problema e o senhor vem dizer que é fácil? Pois bem, o senhor então pode executar o trabalho, mas se não obtiver êxito será demitido juntamente com os seus peões – repetiram a brincadeira, desconfiados e incrédulos.

- Tudo bem Doutor.

Mestre Ruy virou-se para os peões, que já o conheciam, e ordenou:

-Vamos lá rapaziada, "operação réptil"...

Os cinco peões sumiram mato adentro e não tardaram em trazer uma robusta lagartixa. Mestre Ruy amarrou uma linha de pesca fina na cintura da lagartixa e introduziu-a no tubo. Enquanto a lagartixa corria apavorada tubo-a-dentro, Mestre Ruy comandava a operação:

- Dá linha peão, dá linha peão.

Até que a lagartixa parou. Lógico, a lagartixa não sabia para onde estava indo. Talvez, fazendo uma viagem sem volta.

Os engenheiros sorriram e provocaram:

- E agora, Mestre?

Mestre Ruy deu a segunda voz de comando

- Operação marreta!

E os peões passaram a bater com as marretas na entrada do tubo. A lagartixa, espantada, só tinha uma opção: seguir em frente. Quando passou pela curva do tubo, vislumbrou uma luz no fim do túnel. Só podia ser a saída. As marretadas que os peões aplicavam no tubo levavam-na à loucura; ela pensava que o mundo ia acabar; sua vida estava limitada a poucos minutos, segundos talvez. A luz no fim do túnel era sua única salvação. Pra traz não podia correr porque as marretadas provocavam um barulho ensurdecedor. E lá ia ela em busca da luz. A lagartixa teve a certeza que aquela era a saída; a linha já pesava na sua cintura, mas sentia que ainda tinha energia para chegar até lá.

Um esforço mais e... pronto! Saiu do outro lado do tubo com a língua de fora de tão cansada que estava. Mestre Ruy deu uma última recomendação:

- Cuidado peão, não machuca a minha secretária.

E o peão soltou a lagartixa que saiu correndo para o mato após prestar um inestimável serviço à Petrobras.

Os engenheiros, ainda atônitos, não sabiam como agradecer, mas reconheceram que deviam cumprimentar o Mestre Ruy.

Diante do sorriso maroto dos peões ficaram com a ligeira desconfiança de que seriam vítimas de uma tremenda gozação...

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