Não Há Navios Sem Marinheiros



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“Suave, mari magno...”
CLC Leonardo Seixas - Imediato do "Aliança Brasil"

                “É agradável, enquanto no mar revolto os ventos levantam as águas, observar da terra os grandes esforços do outro”. Cada vez mais sou obrigado a relembrar este milenar poema de Lucrécio.
            É chegado o fim de mais um ano e vinte famílias não terão a presença dos seus entes queridos, no Natal e no Ano Novo, embarcados nesse navio.
                Minha esposa sempre comenta que nossa situação é pior, pois sentimos saudades de muitos enquanto nossas famílias sentem saudades de poucos.
                   Alguns dirão que esta condição faz parte da profissão, o que parcialmente concordo. Mas esses sentimentos serão amenizados com a presença dos nossos familiares no porto de Itaguaí no próximo dia 28 de dezembro, correto? Errado!
            A Receita Federal decidiu cumprir uma Portaria de 2001, proibindo a entrada de visitantes no porto. Infame, cruel, desumano, desrespeitoso, humilhante.
            Tenho uma filha de três anos me ensinando (quando a vejo!) que o ser humano, desde cedo, testa os limites. Ela age, sem a devida noção de certo ou errado, esperando que eu defina para ela o limite do aceitável, do correto.
                Parece que nós, marinheiros (e os que nos representam) perdemos há muito nossa capacidade inata de estabelecer o limite dos abusos contra nossa classe.
            Passamos o tempo todo a permitir e conviver com o abuso (e excesso, no sentido mais amplo da palavra) de autoridades. Vigilância Sanitária, Receita Federal, Polícia Federal, Capitania dos Portos, Representantes Portuários, Guardas Portuários... (e a fila só está aumentando!)
                E o quê podemos fazer a respeito? Agir politicamente, contemporizar, tentar remediar, enfim, nada! Indefesos, inertes e próximos da covardia.
                Sentimo-nos a bordo como um mal necessário, definitivamente abandonados.
                Quem, num simples exercício de raciocínio, não previa que a inércia levaria a essa situação limite? Quem pensa que a situação vai parar por aí, que não pode mais piorar?
                Volto a pensar na minha filha. Que exemplo estou dando para ela? Como poderei cobrar dela coragem, se seu pai nada fez para mudar o abuso, honra, se seu pai por várias vezes aceitou o abuso, senso de justiça, se seu pai esqueceu o ditado na aula de direito que dizia: “a lei, quando aplicada ao pé da letra é, invariavelmente, injusta!”, responsabilidade, cuja definição seria a capacidade de responder?
                Tentarei, mais uma vez, contemporizar (odeio essa palavra!).
                Direi a ela que o presente que Papai Noel deixou no navio para ela e que seria entregue no dia 28, infelizmente não será possível porque um Duende mau impediu que ela viesse para bordo.
                Espero não precisar dizer que outro Duende mau impediu que eu levasse o presente para ela, quando eu desembarcar no dia 11 de janeiro, porque não achei a nota fiscal!
                Espero não ter que explicar para ela que seu pai vai demorar mais um pouco a chegar em casa porque discutiu com os Duendes maus e foi preso por desacato à autoridade (qualquer uma delas).
                Mas como preso, conseguirei telefonar para ela todo dia (pelo celular!) e poderei vê-la na prisão...

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