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“É
agradável, enquanto no mar revolto os ventos levantam as
águas, observar da terra os grandes esforços do outro”.
Cada vez mais sou obrigado a relembrar este milenar poema de
Lucrécio.
É
chegado o fim de mais um ano e vinte famílias não
terão a presença dos seus entes queridos, no Natal e no
Ano Novo, embarcados nesse navio.
Minha esposa sempre comenta que nossa
situação é pior, pois sentimos saudades de muitos
enquanto nossas famílias sentem saudades de poucos.
Alguns dirão que esta
condição faz parte da profissão, o que
parcialmente concordo. Mas esses sentimentos serão amenizados
com a presença dos nossos familiares no porto de Itaguaí
no próximo dia 28 de dezembro, correto? Errado!
A Receita
Federal decidiu cumprir uma Portaria de 2001, proibindo a entrada de
visitantes no porto. Infame, cruel, desumano, desrespeitoso,
humilhante.
Tenho uma
filha de três anos me ensinando (quando a vejo!) que o ser
humano, desde cedo, testa os limites. Ela age, sem a devida
noção de certo ou errado, esperando que eu defina para
ela o limite do aceitável, do correto.
Parece que nós, marinheiros (e os que nos
representam) perdemos há muito nossa capacidade inata de
estabelecer o limite dos abusos contra nossa classe.
Passamos o
tempo todo a permitir e conviver com o abuso (e excesso, no sentido
mais amplo da palavra) de autoridades. Vigilância
Sanitária, Receita Federal, Polícia Federal, Capitania
dos Portos, Representantes Portuários, Guardas
Portuários... (e a fila só está aumentando!)
E o quê podemos fazer a respeito? Agir
politicamente, contemporizar, tentar remediar, enfim, nada! Indefesos,
inertes e próximos da covardia.
Sentimo-nos a bordo como um mal necessário,
definitivamente abandonados.
Quem, num simples exercício de
raciocínio, não previa que a inércia levaria a
essa situação limite? Quem pensa que a
situação vai parar por aí, que não pode
mais piorar?
Volto a pensar na minha filha. Que exemplo estou
dando para ela? Como poderei cobrar dela coragem, se seu pai nada fez
para mudar o abuso, honra, se seu pai por várias vezes aceitou
o abuso, senso de justiça, se seu pai esqueceu o ditado na aula
de direito que dizia: “a lei, quando aplicada ao pé da letra
é, invariavelmente, injusta!”, responsabilidade, cuja
definição seria a capacidade de responder?
Tentarei, mais uma vez, contemporizar (odeio essa
palavra!).
Direi a ela que o presente que Papai Noel deixou no
navio para ela e que seria entregue no dia 28, infelizmente não
será possível porque um Duende mau impediu que ela viesse
para bordo.
Espero não precisar dizer que outro Duende
mau impediu que eu levasse o presente para ela, quando eu desembarcar
no dia 11 de janeiro, porque não achei a nota fiscal!
Espero não ter que explicar para ela que seu
pai vai demorar mais um pouco a chegar em casa porque discutiu com os
Duendes maus e foi preso por desacato à autoridade (qualquer
uma delas).
Mas como preso, conseguirei telefonar para ela todo
dia (pelo celular!) e poderei vê-la na prisão...
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