Não Há Navios Sem Marinheiros



 Rio de Janeiro,      

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Animais a bordo
Creio que hoje em dia a presença de animais não é mais permitida a bordo de nossos navios mercantes.
No passado, principalmente na cabotagem, isso era comum e num pequeno esforço de memória, consegui lembrar-me de muitos com quem viajei.
Os primeiros foram cavalos, embarcados no “Cabedelo”, do Lloyd Brasileiro, de Porto Alegre para o Rio de Janeiro.
Foram estivados no poço de vante, em baias de madeira previamente construídas por carpinteiros de terra e viajaram acompanhados de um tratador que os alimentava e cuidava. No poço de ré, baias semelhantes acomodavam um carregamento de melancias. Após o desembarque dos cavalos foi necessária uma baldeação caprichada para eliminar o mau cheiro que deixaram como lembrança.               
O animal seguinte que comigo viajou foi o Faithful, cachorro da raça Collie, a mesma da famosa cadela Lassie dos filmes da Metro. Pertencia ao comandante Arthur Pires dos Reis, do “Bittencourt Sampaio”, da Fronape, e conosco veio de Uddevalla para o Rio de Janeiro, na viagem inaugural, em 1951. Era um cachorro dócil, muito bonito e bem tratado, freqüentemente nos fazendo companhia no passadiço, a mim, primeiro piloto, e aos outros oficiais.       
Em seguida foi o Macaco, um vira-lata todo preto de porte pequeno. Encontrei-o no “Guaratinga”, primeiro navio que comandei. Animal simpático e bem cuidado, querido por todos. Lembro-me que, por sua causa, atrasei uma saída do navio de Natal. Era de manhã cedo e o Imediato me informou, como de costume, que todos os tripulantes se encontravam a bordo. Faltava, entretanto, o Macaco. Não quis abandoná-lo e mandei alguns homens procurá-lo pelas redondezas. Uns 15 minutos mais tarde, voltaram os marinheiros, um deles trazendo o Macaco no colo. Só então começamos a manobrar.
Quando desembarquei do “Guaratinga”, após uma viagem de quatro meses até Belém, Macaco permaneceu a bordo. Não sei que fim levou já que na viagem seguinte o navio perdeu-se na praia do Campo Bom, ao sul e próximo do Cabo de Santa Marta. Não creio que o tenham abandonado a bordo e ele deve ter terminado seus dias com alguma família daquela região.
Ainda em 1954, assumi o comando do “Santa Helena”, da massa falida Transmarítima Comercial, sob administração do Banco do Brasil. Lá encontrei Boca Negra, cadela vira-lata amarelada. Seu nome deve ter tido origem na tribo de índios recém descoberta e assim denominada. Nas atracações, estava sempre no portaló, esperando a escada ser arriada no cais. Enquanto a tripulação ainda colocava os balaustres para passar o cabo de corrimão, já Boca Negra baixava a terra rapidamente para fazer seu reconhecimento. Isto acontecia em cada porto e esse procedimento parecia ser comum a todos os cachorros de bordo.
Fui transferido para o “Santa Rosa”, da mesma massa falida, e este não tinha animais a bordo. Transportamos, entretanto, um jerico, de Areia Branca para o Rio de Janeiro. Fora presenteado por um salineiro ao funcionário do Banco do Brasil que administrava a companhia. Viajou no poço de vante e além de sua ração de alfafa ou capim, comeu parte de um encerado de tampa de escotilha. Num temporal, próximo a Abrolhos, com o mar lavando o convés do navio, carregado até a marca do seguro, mandei que removessem o jerico de junto à antepara do castelo, onde ele se abrigara, para o bancacho de meia nau. Alguns tripulantes, após muita luta, conseguiram trazê-lo até a porta do bancacho mas ali o jerico empacou e não queria levantar as patas dianteiras para transpor a soleira. De repente, embarcou uma vaga maior e lá se foram bancacho adentro o jerico e os homens que o conduziam. O jerico sofreu um corte sobre as costelas no bordo direito. Seguindo o conselho de um tripulante, foi posto pó de café sobre o ferimento e este já estava cicatrizando quando dias depois o jerico desembarcou.
O “Santa Rosa” teve também, mas por muito pouco tempo, um cachorrão velho e felpudo, que alguns tripulantes trouxeram para bordo em Porto Alegre, sem minha permissão. Batizaram-no “Mingau”, apelido de um piloto que desembarcara pouco antes. O cachorrão, bastante manso, ficou preso no tombadilho e na escala seguinte, Pelotas, resolvi desembarcá-lo. O cachorro era pesado e o carreguei pela escada, mas ao pisar em tambores estivados em todo o poço de ré, desequilibrei-me e caí junto com ele, felizmente sem nos machucarmos. Amarrei um cordão no pescoço do “Mingau”, à guisa de coleira, e o levei para terra. Afastei-me umas seis ou oito quadras para soltá-lo bem longe do navio, junto com outros cachorros que por ali perambulavam. Feito isto, voltei para bordo. Cerca de meia hora mais tarde o quartermaster me infomou que um senhor queria falar comigo, no portaló. Lá fui ver o que era. Para minha surpresa, acompanhando o tal senhor, estava o “Mingau”. “Encontrei perto daqui o cachorro do navio, pensei que ele estava perdido e resolvi trazê-lo de volta”. Resolvi o problema, explicando ao senhor que o cachorro não poderia ficar a bordo e que, se quisesse, poderia levá-lo consigo. A oferta foi logo aceita e lá se foram os dois juntos.
Além de cachorros, também tínhamos gatos a bordo. No “Imbaha”, navio que comandei por quase seis anos, tivemos um todo preto do qual pouco me recordo,  mas que foi fotografado no colo de minha mulher que comigo viajava. Mais tarde, no “Kalú”, tivemos, além de uma cadela, um casal de gatos, igualmente fotografados em meu camarote.
No “Imbaha” tínhamos ratos em profusão. As anteparas eram duplas e entre elas eles passeavam. Em alguns lugares havia buracos por onde saiam em sua busca por comida. Compramos um alçapão, ao qual o rato era atraído por um pedaço de queijo que, ao ser tocado, fechava a porta. O rato ficava aprisionando sem ser machucado.
Uma vez prisioneiro, vinha o problema. O rato nocivo e perigoso transformava-se em um pequeno animal indefeso. Como em criança criei ratinhos brancos, ficava difícil condenar os prisioneiros à morte. Um maquinista chegou a construir um pequeno aparelho que, segundo ele, permitiria, com um simples choque elétrico, matar o rato sem sofrimento. Não funcionou na experiência que fizemos e quando no porto, alguns terminaram por ser postos n’água, no costado do navio, em cima de uma pequena tábua.
Numa estadia em Santos, embarcou um novo Chefe de Máquinas que logo nos “convenceu” de que, se conseguíssemos colocar um guiso no pescoço de um rato e soltá-lo, ele faria com que os outros fugissem. O Chefe não explicou exatamente para onde eles fugiriam, mas apenas pela brincadeira, comprei nas Lojas Americanas alguns guisos. Rapidamente capturamos dois ratos e com arame de cobre o próprio Chefe de Máquinas colocou um guiso no pescoço de cada um. Em seguida foram soltos e se enfiaram no buraco mais próximo. Logo passamos a localizá-los quando corriam de um lado para o outro entre as anteparas ou sobre o forro dos tetos das acomodações.
Em 1958 o “Imbaha” fez uma viagem à Europa para docar em Bremerhaven e lá fazer uma obra demorada. Quando atracamos, o pessoal da Saúde dos Portos veio a bordo e encontrou grande quantidade de excrementos de rato, denotando que o navio estava infestado. Foi feita uma desratização com gás, ficando toda a tripulação hospedada por 24 horas num hotel em terra. No dia seguinte fui chamado à Saúde e lá me mostraram, sobre uma bancada, dezenas de ratos mortos recolhidos a bordo, dois deles com guiso no pescoço. Queriam uma explicação, mas não a obtiveram. Ponderei que só poderia ter sido arte de algum maluco.
O próximo cachorro, ou melhor, cadela, com quem viajei, foi a Ximbica, do “Kalú”. Quando  embarquei já a encontrei a bordo. Era uma vira-lata amarela, de porte médio, e um pouco agressiva. Acho que nossa antipatia era mútua, pois um dia, quando fui vê-la no local onde ficava presa, sobre uma pequena estrutura na popa que abrigava a máquina do leme, ela rosnou para mim ameaçadora.
Na primeira escala que fizemos em Santos a Ximbica atacou um estivador e decidi desembarcá-la imediatamente. Recebi então do Chefe de Máquinas um abaixo assinado, que até hoje guardo, com a assinatura de quase todos os tripulantes. Dizia: “Da guarnição ao Senhor Capitão do Kalú – Oficiais e tripulantes deste navio vem mui respeitosamente solicitar de V.S. o não desembarque da Ximbica, por se tratar de uma boa cachorra e útil para o navio, passando a usar de agora em diante uma mordaça. Bordo do Kalú, Santos, 10 de julho de 1963”. Diante de tal manifestação, cedi, e a cadela permaneceu embarcada, usando, quando no porto, uma mordaça.
Nossa reconciliação deu-se numa véspera de Natal, em Santos. Como o navio ia desatracar na manhã seguinte, e sempre fiz questão de estar presente a todas suas manobras, decidi não vir ao Rio, onde residia.  Voltava para bordo por volta das 11 horas da noite, caminhando sozinho pelo cais deserto quando, a uns 100 metros do “Kalú” avistei a Ximbica, em um de seus passeios. De longe, ela me reconheceu e aproximou-se, abanando o rabo. Deixei que ela chegasse junto a mim, afaguei sua cabeça e desde então ficamos amigos.
Quando deixei o “Kalú” para trabalhar no escritório de seu armador, lá deixei a Ximbica que, segundo soube, morreu atropelada nas proximidades do porto aqui no Rio de Janeiro.
Mais tarde passei a viajar exclusivamente em longo curso e animais a bordo seriam um problema, pois necessitariam de documentos, vacinas e, em certos países, não poderiam nem desembarcar. A única exceção que me recordo foram os peixes ornamentais que o Chefe de Máquinas Anthusio trouxe do Japão, a bordo do “Docevale”, em sua viagem inaugural. Num dia de mau tempo, com o navio jogando, os peixes começaram suicidar-se saltando para fora do aquário, obrigando o Chefe a improvisar uma tela para tampá-lo.
Não falei dos passarinhos que nos navios de cabotagem estavam sempre presentes. Geralmente eram adquiridos nos portos do norte e nordeste e trazidos para o sul. Muitos morriam ao passar Cabo Frio, talvez por encontrarem temperaturas mais baixas, diferentes do seu habitat.
Diziam os entendidos que os mais fracos eram os que comiam frutas; os de comida seca eram mais resistentes. Eram graúnas, galos-de-campina, rolinhas fogo-apagou, corrupiões, cancãs e outros. 

Rio de Janeiro, 23 de julho de 2008

CLC - Carlos  Eugênio Dufriche



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