Não Há Navios Sem Marinheiros



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Não custa relembrar que esta despretensiosa seção se destina aos colegas já aposentados e que ainda se interessam em manter razoavelmente atualizados seus conhecimentos sobre novas tecnologias.

Da barquinha ao Doppler
Comte. Luiz Augusto C. Ventura – CLC
venturalac@yahoo.com.br

Comte. Antônio Haylton Figueiredo – CLC
aahylton@click21.com.br

A determinação da velocidade a bordo já passou por muitas fases, algumas das quais muito curiosas e engenhosas. Nos primórdios da navegação a velocidade era obtida jogando-se na água um pedaço de madeira na proa, medindo-se o tempo que ele levava para chegar na popa. Sabendo-se o comprimento do navio e o tempo percorrido, tinha-se a velocidade. Mas, como não existia o cronômetro, o tempo era medido por uma ampulheta, com todas as dificuldades que isso implicava. “Log” é uma palavra inglesa, que significa um pedaço de madeira, daí porque ela designa o odômetro, instrumento para medir a velocidade.
Método mais aperfeiçoado e sofisticado surgiu posteriormente quando se passou a lançar pela popa uma espécie de barquinha, também de madeira, e que, por ter um dos lados mais pesado, flutuava com um ângulo para cima. Essa barquinha era presa a um cabo tipo adriça com vários nós espaçados a uma distância conhecida e padrão. Ao mesmo tempo em que a barquinha era lançada, virava-se uma ampulheta cuja areia estava calibrada para escorrer em 28 segundos. Como a distância entre cada nó era de 47 pés e 3 polegadas (14,40m), significa dizer que cada nó lançado correspondia a 14,40m / 28s, ou seja, 1851,66 m/h, com uma diferença desprezível para a milha náutica que é de 1852m. Era suficiente então o operador lançar a barquinha, virar a ampulheta e contar os nós que passavam até que a ampulheta se esvaziasse. O total de nós lançados dava a velocidade da embarcação. Até hoje a velocidade a bordo é designada em nó, ou seja, uma milha por hora.
Mais sofisticado ficou o sistema quando se passou a utilizar o odômetro de superfície.
Esse sistema consiste em um pequeno hélice portátil, ligado a um cabo, que por sua vez é conectado com um volante e um destorcedor a um mostrador com mecanismo de relojoaria. Quando o navio se desloca provoca um movimento de rotação no hélice que, através do cabo e do volante, é transmitido ao mostrador. Obtém-se a velocidade fazendo-se a leitura das milhas percorridas a cada hora diretamente no contador do mostrador que também dispõe de um totalizador da distância navegada. Este sistema, que ainda hoje é equipamento obrigatório nos navios mercantes, continua, por tradição, a ser chamado de barquinha.
A maioria dos Comandantes de hoje, quando Oficiais, utilizou o odômetro de superfície (barquinha). Era uma rotina exigida pelos Comandantes da década de 60/70 quando a maioria dos navios ainda não dispunha de recursos modernos de determinação da velocidade. A barquinha era instalada na asa do passadiço ou no redondo de popa. Havia sempre o cuidado de içá-la nas proximidades e arriá-la nas saídas de barra. O Oficial de serviço em viagem tinha o encargo de içar a barquinha sempre que o navio, por qualquer motivo, tivesse que parar a máquina.
O odômetro de fundo, praticamente aposentou a barquinha. Esse equipamento já faz parte estrutural do navio e consiste em uma haste projetada através do casco no fundo controlada por uma válvula de mar. Dentro da haste existe um tubo Pitot duplo: um que abre para vante e outro para ré. Com o deslocamento do navio, por diferença de pressão, um sinal é transmitido a um indicador convertido em velocidade.  
Mas, desses métodos, só restam as saudades. Os navios cresceram muito como os petroleiros e graneleiros e ficaram muito velozes como os conteneiros e os passageiros.    
A velocidade hoje é mostrada em painéis digitais que fornecem também as coordenadas controladas por satélites. O dopller, e seus transdutores de posicionamento mostra instantaneamente a velocidade em relação ao fundo em qualquer profundidade e também está aposentando o odômetro de fundo.
A barquinha foi de inestimável valor para o navegante que, além dela, só dispunha de uma agulha magnética, uma precária giroscópica e, com sorte, um radiogoniômetro.


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