Não Há Navios Sem Marinheiros



 Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 109  

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Rio, 08/01/2009
Portos Brasileiros: casa-da-mãe-joana
Comte. Luiz Augusto C. Ventura – CLC
venturalac@yahoo.com.br

A ortografia mudou e pode ser que “casa-da-mãe-joana” agora se escreva   “casa da mãe Joana”, sem hífen. Não sei.  O que não mudou certamente foi o seu significado, ou seja: lugar onde vale tudo, onde predomina a confusão e a desorganização, onde todos mandam, cada um à sua maneira. E isto se emprega aos nossos portos onde mandam a Saúde dos Portos, a Marinha, a Receita Federal, a Polícia Federal, a Guarda Portuária, etc...
O que também não muda é o tratamento dado aos marítimos e seus familiares na área portuária. Neste final de ano, como já era de se esperar, a Autoridade Marítima (desta vez foi a Receita Federal a “dona da casa”) voltou a exibir o seu poder discricionário contra os marítimos, justamente na semana imprensada entre o Natal e o Ano Novo.
Tratando-se de uma data estratégica, o recém nomeado delegado do Porto de Itaguaí, certamente para não ter seus planos de “trabalho” perturbados, simplesmente resolveu ressuscitar uma portaria de 2001, proibindo que qualquer pessoa estranha aos quadros administrativos da área operacional do porto tenha acesso a ela. A portaria, anterior à implantação do Código ISPS, não menciona marítimos e muito menos seus familiares, mas estes, pra variar, são sempre envolvidos e considerados potencialmente perigosos sem a mínima consideração.
Um dos navios da nossa frota mercante, o “Aliança Brasil”, pegou essa onda de proa (ver artigo indignado do Imediato no nosso site intitulado “Suave, mari magno”). Chegou ao porto no dia 28/12, saiu no dia 29 e, devido a essa ordem absurda e esdrúxula, os tripulantes que não puderam baixar terra em virtude de seus afazeres durante a operação do navio, ficaram impedidos de abraçar seus filhos, suas esposas, seus familiares.
Como é que um funcionário público federal, com curso superior, pago com os nossos impostos, toma uma atitude dessas? Será que esse funcionário não mede a abrangência do seu cargo e dos seus atos? O pior é que essa gente comete contra nós, que estamos gerando divisas para a economia do país, as maiores atrocidades, e ainda tem o desplante de nos chamar de “contribuintes”.
Qual o perigo que o familiar de um tripulante de um navio atracado pode trazer à área portuária? Ele sabe que essa categoria existe? Que prejuízo esse familiar poderia causar aos cofres públicos com uma simples visita a um navio, anda mais autorizada pelo Comandante?
Achamos que alguma coisa tem de ser feita. E com urgência. O que não pode continuar é essa idiossincrasia sem pé nem cabeça.

A navegação de cabotagem no Brasil
Comte. Luiz Augusto C. Ventura – CLC
venturalac@yahoo.com.br

É difícil entender como um país como o Brasil, detentor de 8000 km de litoral, não desenvolve a Cabotagem no seu território, incentivando o transporte de mercadorias por via aquaviária, sabidamente o meio mais eficiente não só pela segurança da carga como pelo custo mais baixo do frete.
Aliado ao fato de possuir um imenso litoral, uma faixa dele, com 200 km de largura, abriga a grande maioria das cidades e capitais brasileiras com acesso ao mar e próximas dos principais portos de norte a sul, ou de Porto Velho a Porto Alegre.
Os Estados Unidos exploram muito bem essa condição. A soja produzida lá, a preços muito mais altos do que no Brasil, é exportada a preços mais baixos, graças à racionalidade do transporte da “commodity” que é transferida do interior para os portos por meios ferroviários e hidroviários, muito mais baratos do que o rodoviário.
Essa vantagem, no entanto, não está sendo por nós aproveitada. Para se ter uma idéia, o transporte de cargas na cabotagem equivale a um pouco mais de 13% de toda a carga transportada (na década de 50 eram 28%) devendo-se levar em conta que a maior parte dessas cargas entre os portos brasileiros é de combustíveis e minérios, com a carga geral participando de apenas 4.5% da tonelagem geral.
Clamam uns pela melhoria da infra-estrutura portuária e os esbarros são enormes como a sempre alegada falta de verbas e, quando elas existem, os entraves burocráticos para execução das obras, haja vista o aprofundamento do porto de Santos. É preciso aumentar a capacidade da frota de cabotagem, apregoam outros, mas os armadores relutam em encomendar navios devido à falta de financiamento e, sobretudo, da obrigatoriedade de fazê-los em estaleiros nacionais onde os preços, segundo eles, são muito mais altos do que China, Cingapura, Hong-Kong ou Coréia. Ainda outro fator que contribui para o empecilho do desenvolvimento do setor, gritam os transportadores, é o preço do combustível utilizado nos navios de cabotagem, sem subsídios.
Como atenuante, temos a informação da Secretaria Especial de Portos de que está estudando medidas para a correção dessas anomalias levando em conta iniciativas que visam: estimular a navegação de cabotagem reduzindo o custo de abastecimento dos navios, adequar e regulamentar a legislação, estimular a ampliação e modernização da indústria da construção naval e reorganizar a atividade portuária.
Estas e outras medidas são bem-vindas e precisam realmente ser implantadas, do contrário corremos o risco de ver nossa cabotagem entregue aos grandes conglomerados internacionais que estão de olho, sobretudo, no nosso transporte de granéis líquidos. Insinuações não faltam como a tentativa de prolongar na cabotagem os navios procedentes do longo curso. Os navios de passageiros já fazem turismo no nosso litoral, com milhares de passageiros, enquanto nossos empresários e autoridades marítimas discutem o sexo dos anjos.
A coisa é tão mais grave quando se vê um Ministro de Estado, Reinhold Stephanes, contestar o fato de que é mais barato enviar um produto do Porto de Santos para a China do que mandá-lo para o nordeste e apontando como solução para esse disparate a quebra do monopólio da nossa cabotagem e da construção naval, um outro disparate.
Mas temos indícios de que o bom senso vai acabar prevalecendo. Um deles é a disposição da Secretaria de Portos em apontar medidas razoáveis; outra é o vislumbre de parte da armação nacional que, ao invés de ficar se lamentando, investe no potencial do país a exemplo, dentre outras, da Aliança, que continua crescendo e investindo cada vez mais na Cabotagem e a Log-in, que acaba de contratar a construção de cinco navios porta-contêineres ao Estaleiro EISA com financiamento do BNDES de R$ 625,2 milhões. Isto sem falar na Transpetro que tem sido o esteio da nossa Cabotagem e um exemplo a ser seguido pelo empresariado nacional.

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